Estrada da Reforma Agrária

Trabalhadora rural caminha na estrada da Reforma Agrária - Foto Eleonora de Lucena

Trabalhadora rural caminha na estrada da Reforma Agrária – Foto Eleonora de Lucena

Eduardo, 14, estudante e agricultor. Luiz Paulo, 27, estudante de história, professor, militante do MST e agricultor. Rodolfo, 58, jornalista que nunca pegou na enxada. Esse trio começou às 6h40 de hoje um treinão coletivo pioneiro na Estrada da Reforma Agrária, no município pernambucano de Santa Maria da Boa Vista.

Eduardo foi quem primeiro sentiu o gosto da estrada. Ele é filho do Boqueirão, um dos assentamentos construídos ao longo da rodovia de 61 quilômetros. Diferentemente da maioria dos trabalhadores rurais, ele já nasceu dono de terra  –sua família tinha participado da luta pela posse, e os documentos saíram pouco antes do garoto nascer.

O garoto caminhou cerca de um quilômetro para nos encontrar. O treino sairia de um pé de umbuzeiro à beira da estrada, na entrada da segunda vila do assentamento Nossa Senhora da Conceição. Ali estamos, Luiz Paulo e eu, prontos para queimar o chão. É a primeira vez que Eduardo participa de uma corrida, a primeira vez que Luiz Paulo sai para enfrentar um percurso de mais de dois ou três quilômetros.

Estamos hospedados na casa da família de Luiz Paulo, um dos dirigentes locais do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, responsável na área de educação. Na noite de sexta-feira, dona Vonicleide, seu Francisco e o próprio Paulo nos receberam de braços abertos e já nos contaram um pouco sobre esse assentamento.

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Seu Francisco, Eleonora, eu, dona Vonicleide e Luiz Paulo (da esq. para a dir.) – Foto Arquivo Pessoal

Aqui vivem e trabalham 140 famílias, divididas em duas vilas, onde cada família tem uma pequena propriedade: casas boas, de alvenaria, e um quintal onde dá para plantar árvores frutíferas, fazer uma pequena horta e até abrigar alguns animais.

No quintal da família Mota dos Santos, há duas belíssimas árvores de romã, uma de seriguela, outra de acerola, e ainda abrigo para ovelhas e cabras passarem a noite –ao longo do dia, os animais são levados para a roça.

Os lotes de lavoura de cada família de assentado são de três a quatro hectares. Em boa parte deles, o formato é de um grande e fino retângulo, com acesso direto às águas do rio São Francisco. Ali se planta banana, manga, goiaba e maracujá para vender, além de outras culturas para consumo próprio. Sem falar na frutaria gaudéria: todas as manhãs comemos mamão vindo direto de um pé crescido à beira do Velho Chico.

Há muitos lotes também na área chamada de “sequeiro”, “do lado de cá” da Estrada da Reforma Agrária. Por conta da falta de irrigação, são terrenos maiores em que a roça é pouca: ali ficam as criações de cabras e ovelhas.

Os bichinhos estão por tudo: nos quintais das casas, pastando sem destino pela vila e nos caminhos rurais, entre os roçados. Hoje por pouco não tivemos de parar a corrida para deixar passar um rebanho que vinha subindo pela trilha de chão batido.

Não foi a primeira vez que percorri a estrada da Reforma Agrária. Ontem já tinha feito um treino solitário por ali. Mais tarde, quando a manhã de sábado já ia alta, Eleonora e eu fomos levados até a sede do município, a quase sesquicentenária Santa Maria da Boa Vista. Iríamos acompanhar um encontro municipal de jovens, preparatório par reunião estadual.

Foi uma beleza, coisa de deixar velhos babões como nós emocionados. Em pleno sábado, mais de cem jovens reunidos para discutir os problemas locais e propor medidas bem concretas para enfrenta-los. O encontro começou ao som do Hino Nacional, todo mundo cantando de cor como se espera; antes, executaram o Hino do município, muito bacana também e cantado com entusiasmo surpreendente  =o refrão diz “é nossa terra, é nossa gente, aqui se encerra o amor ardente dos nossos pais, das mães queridas, padrões reais das nossas vidas” (clique em http://www.letras.com.br/#!hinos-de-cidades/hino-de-santa-maria-da-boa-vista-pe).

Pelo jeito, o município incentiva o espírito cívico de todo a turma. Que eu saiba, é raro isso. Como gaúcho, claro que sei de cor e salteado o Hino do Rio Grande, mas não tenho a mínima ideia da existência de um Hino de Porto Alegre. Claro que conheço o brasão porto-alegrense e o dístico “mui leal e valerosa”, mas não guardo em casa uma bandeira de minha cida, como faz a família de Luiz Paulo (na foto, ele e a mãe, dona Vonicleide).

Voltando ao tal encontro municipal da juventude que tanto nos emocionou.

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Plenária do encontro da juventude de Santa maria da Boa Vista – Foto Eleonora de Lucena

Havia gurizada desde 12 ou 13 anos até gente mais taluda, na casa dos vinte e poucos (ou e muitos também…). Eram representantes de jovens de comunidades quilombolas, de lavradores de áreas ribeirinhas, de assentamentos rurais, de povoados de pequenos agricultores e da sede do município.

Tinham sido escolhidos em reuniões prévias, depois de muita discussão sobre questões locais –dava para perceber isso pelo tipo de proposta que apresentavam e pela galhardia com que defendiam que aspectos bem específicos de comunidades aparecessem no debate coletivo.

Os jovens se dividiram em grupos para discutir temas como trabalho e educação, violência, igualdade de gêneros, cultura e ecologia –no total, 11 grandes áreas de debate, que foram agrupadas em seis turmas.

Eleonora e eu acompanhamos a discussão no grupo de cultura, esporte e comunicação; devo dizer que aprovo de coração todas as propostas que saíram do grupo. Elas seriam muito úteis para quem desejar fazer um governo progressista e voltado para os interesses populares  –há desde defesa das culturas locais até estabelecimento de áreas de lazer, de abertura de museus a acesso público e gratuito a redes de internet sem fio.

No final, foram eleitos delegados municipais para defender a causa boa-vistense no cenário estadual. Para garantir a igualdade de gêneros –ainda que a mulherada fosse maioria em plenário–, foram escolhidos um homem e uma mulher. A moça é das comunidades quilombolas e o rapaz é dos assentamentos –nosso já conhecido Luiz Paulo–, eleito em disputa tão acirrada que exigiu recontagem dos votos.

Voltamos todos no ônibus que devolveu os jovens reassentados para suas casas. Na viagem, contamos ao grupo os planos para a corrida desta manhã, e logo vários afirmaram que estariam juntos na jornada da madrugada. Acordar cedo, afinal, não é problema para adultos os jovens que moram e trabalham nos assentamentos ao longo da estrada da Reforma Agrária.

“O dia clareou, a gente já está na luta”, diz Francisco Aprígio da Silva, 54, marido de dona Vonicleide. Os dois se conheceram há pouco mais de dois anos, com Francisco veio trabalhar na terra de pois de mourejar a vida inteira como operador de máquinas –não dava mais para aguentar o solavanco da escavadeira, que joga onde de choque no corpo inteiro  do trabalhador.

Nos dias de aguar a roça, quando são ligadas as bombas de captação de água do São Francisco, seu Aprígio acorda ainda mais cedo, às quatro da manhã. Quem chegar primeiro tem direito a usar primeiro o equipamento; não madrugou, vai ter de esperar.

Para nós, não foi necessário sair tão cedo. Queríamos apenas fugir do solaço. Despertar às seis foi mais do que bom, mas os tantos garotos que esperávamos às seis e meia não apareceram. Tudo bem, é apenas uma diversão, e corrida é uma novidade na área em que futebol de campo e de salão dominam as horas de lazer de quem gosta de praticar esporte.

Saímos então Luiz Paulo e eu, fazendo o perímetro do vilarejo –aqui é Conceição 2; a vila 1 está mais para a esquerda, em direção à rodovia federal, BR 428.

Percorremos as três ruas que definem o povoado, rodeamos o umbuzeiro, e subimos para a estrada da Reforma Agrária  –estamos numa das pontas da rodovia, a que fica mais próxima da sede de Santa Maria; o outro extremo da estrada é no trevo dos Vermelhos, que não é referência aos comunistas, mas ao nome de um povoado da região.

É lá que encontramos Eduardo. Cruzamos a rodovia da Reforma Agrária e seguimos pelos caminhos da roça.

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Eduardo, eu e Luiz Paulo rumo às beiradas do rio São Francisco — Foto Eleonora de Lucena

No meio da aridez nordestina, terra crestada pelo sol, o solo aqui ganha vida pelo trabalho e pelas águas do São Francisco. Passamos por videiras com enormes cachos de uva, campos de maracujá, bananais, até chegar ao rio; há que admirar a paisagem e render homenagem à natureza. Dá tempo até para uma selfie dos três intrépidos pioneiros da corrida.

Seguimos correndo pelas trilhas de chão batido, onde passam motos e pequenos carros, e até bicicletas carregadoras (como a do seu Francisco) e motos com fardo de capim, como a pilotada por seu Vicente.

Seu Vicente, por sinal, tem uma história muito curiosa. Ele era vigia da Queiroz Galvão nos primeiros anos deste século. Estava de plantão no dia exato em que quase uma centena de sem terra saíram do acampamento Safra –o pioneiro na região, “mãe de todos”, como costumam dizer—para tomar as terras em que hoje é a vila do Boqueirão.

Naquele dia, há cerca de 18 anos, Vicente chamou a polícia. Os agricultores, com ordem de posse, não fugiram quando chegaram as viaturas. Ao contrário, sem violência, mostraram que o direito já lhes tinha sido garantido. E as porteiras se abriram.

Hoje Vicente é um dos assentados do Boqueirão. Graças ao seu próprio trabalho, conseguiu criar o filho e lhe dar faculdade –o “menino” é hoje advogado e milita nas fileira do MST.

Nossa corrida segue pelo assentamento que abriga 105 famílias. Percorremos as ruas, ganhamos água geladinha na casa da avó de Eduardo, e o garoto nos dá tchau, vai ficar por ali mesmo, depois de pela primeira vez na vida ter participado de uma corrida. Foi um treino, uma experiência, pouco mais de seis quilômetros trotados sem pressa, conversando e descobrindo um novo mundo de atividade física.

Luiz Paulo e eu rodamos de novo pelo asfalto altamente abrasivo da estrada, chegamos até um pontilhão que hoje está firme e forte, mas que foi quebrado em pedaços pelas enchentes de 2002.

Sozinhos, vemos as terras que margeiam a estrada e iniciamos o caminho de volta. Mais uma vez passamos pelo assentamento do Boqueirão. Agora, que surpresa!, encontramos duas figuras históricas do MST de Santa Maria da Boa Vista, dois dos participantes da primeira ocupação  –Safra–, há 20 anos.

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Gêmeos João e Antonio Geminiano de Sá, pioneiros no assentamento de Boqueirão — Foto Rodolfo Lucena

Eles são gêmeos até no nome – João Geminiano de Sá e Antonio Gemininano de Sá. Fazem juntos seu trabalho e sua luta, militam com decisão no MST desde meados dos anos 1990. Encontro os dois quando João já está se preparando para sair: vai matar um cabrito para a festa de um vizinho.

Fico feliz que deu tempo de encontrar com os gêmeos, pois são dois dos pioneiros na luta dos sem terra na região. Em 1995, João deixou de lado dois hectares de tomate, que já estavam florados, quando ouviu falar dos planos de ocupação de uma fazenda praticamente abandonada na região.

“Quando chegamos, o pessoal já tinha entrado, tinha gente debaixo da lota. Na porteira, a polícia estava armada, não deixava ninguém passar. Nós demos a volta, fomos pelo campo, cortei a cerca com facão e entramos.”

Resistiram às ameaças, ficaram até conquistar a posse na Safra e depois se espalharam. As 2.200 famílias foram divididas em vários assentamentos, João e Antonio foram para o Boqueirão, onde ciraram as famílias.

Antonio tem 12 filhos, João tem 11  –um formado em economia, duas em enfermagem. Na sua conversa, falando de seu trabalho e de suas conquistas, várias vezes faz o pelo-sinal e explica: “Graças a Deus e ao Movimento”; com a variação: “Graças a deus e às nossas lutas”.

Agora, seu sonho é que venha a irrigação para os terrenos que tem na área de sequeiro. “Quero morrer aqui. Daqui não saio”, proclama ele com entusiasmo.

Incentivados pela conversa, Luiz Paulo e eu saímos acelerados pela estrada. Entramos por alguns caminhos laterais, pegamos rumos já percorridos e finalmente chegamos á rodovia já de volta quase na entrada do Conceição, o “nosso” assentamento.

Falta pouco para fecharmos 14 quilômetros  –o número serve de homenagem ao nosso parceiro corredor de apenas 14 anos. Damos algumas voltas ao redor do umbuzeiro, sentinela de acesso ao Conceição, e assim completamos a primeira jornada do MARATONANDO COM O MST.

Amanhã tem mais.

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