Escola Antonio Conselheiro

31 B corrida 1

Fotos Eleonora de Lucena

Você já fez uma corrida feliz, alegre, satisfeito, de abrir gargalhada de orelha de orelha e sorrir o coração? Pois isso aconteceu comigo hoje, na primeira corrida da escola Antonio Conselheiro em nosso projeto MARATONANDO COM O MST. Foram dois quilômetros de energia pura, criançada brincado, menina pulando, garoto disparando, todo mundo se divertindo a mais não poder. E construindo mais um pedacinho do caminho de esperança que precisamos abrir pelas picadas deste nosso Brasil velho de guerra.

Chegamos à escola –Eleonora, Luiz Paulo (representante do MST) e eu—quando a turma estava terminando de cantar o Hino Nacional. Antes dos inícios dos trabalhos escolares, os estudantes se reúnem em círculo para um momento cívico, de apreciar e cantar hinos –cada dia é um: Nacional, do município de Santa Maria da Boa Vista, do MST, da República e da Independência.

Enquanto os meninos e meninas da manhã –pré-escola e primeira etapa do ensino fundamental se encaminhavam para as aulas–, nós aprendemos um pouco sobre a história da escola.

Como em todos os acampamentos e assentamentos do MST, a primeira preocupação das lideranças é montar uma área de estudo. Não por acaso, portanto, a escola do Boqueirão tem a mesmo idade do assentamento onde está instalada, construída em alvenaria, com amplas salas de aula, um pátio, sala dos professores e cozinha em que as merendas são preparadas.

31 A alongamento

Nem sempre foi assim: “Quando a gente chegou, montamos mesmo com lona, na beira do rio, lá debaixo de um juazeiro”, conta dona Luzinete Santana da Silva, a animada presidente da Associação dos Moradores no Assentamento de Boqueirão, município de Santa Maria da Boa Vista, Pernambuco.

De lá para cá já se passaram 19 anos. Hoje a escola conta com quase 200 alunos, atendendo não só aos filhos das 105 famílias que formam o assentamento, mas também crianças e jovens de comunidades escolares –um serviço público de transporte escolar garante que mesmo que more em locais mais distantes tenha acesso à educação.

Muito gentilmente, os professores me dão espaço para falar com a gurizada sobre nosso trabalho na região. Não sei se a alunada prestou muita atenção: estamos todos esperando a chegada do professor de educação física.

31 A alongamento 2

Humberto Silva Cardoso acordou às 4h30 de hoje em Juazeiro da Bahia, do outro lado do São Francisco. Cuidou dos afazeres e saiu às seis horas para conseguir chegar, no seu próprio carro, na hora da aula no Boqueirão.

Mais que professor, Cardoso é um militante da atividade física e adepto da corrida. Na sua cidade, tem uma equipe e treina para-atletas, além de dar aulas regulares.

Contei a ele o projeto, e foi sopa no mel. Resolvemos fazer ali mesmo uma demonstração dos benefícios da corrida, chamando a turminha para participar de um evento improvisado, feito na hora, ao vivo e em cores.

Saímos todos para um campo de futebol próximo. De novo, um círculo, a forma perfeita, em que todos nos vemos, nos sorrimos e nos provocamos.

Estica daqui, puxa de lá, o professor vai dando os comandos e a turma toda se prepara. Vamos fazer uma atividade inédita na história da escola Antonio Conselheiro –homenagem ao líder do arraial de Canudos, onde, como nos assentamentos, os desabrigados do sertão e as vítimas da seca eram recebidos de braços abertos, e todos tinham acesso à terra e ao trabalho sem sofrer as agruras dos capatazes das fazendas tradicionais.

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Conversamos rápido para orientar sobre o percurso e foi dada a largada. Da sombra de uma grande e frondosa árvore, cruzamos a estrada da Reforma Agrária e entramos pelas ruas do assentamento do Boqueirão. Mal tínhamos cruzado a rodovia e alguns jovens já estrebuchavam, reclamando do cansaço da corridinha.

Foi quando começamos a conversar com ele, o professor Cardoso e eu, falando sobre ritmo e como mexer o corpo para continuar correndo bastante. Ao meu lado, vinham um menino e uma menina dos mais novos da turma, conseguiam organizar o corpo de forma exemplar: enquanto outros disparavam e resfolegavam, eles seguiam sempre na mesma passada, como se fossem experientes maratonistas.

31 B corrida 4 bananal

Mas corrida é diversão, fuzarca, e vários meninos e meninas saíram na correria, cruzaram por alguns becos, voltaram para o trajeto principal e logo reclamavam: “Vou ter de ir já para o hospital!”.

Que nada, meu povo, vamo que vamo! Com o professor, Luiz Paulo e eu, a turminha se animou. De uma vez só, percorremos quase todas as ruas do assentamento, recebendo sorrisos e aplausos de moradores que estavam nas varandas e cercas de suas casas.

Depois de uma parada estratégica na escola, para todo mundo tomar um copo de água, saímos de volta para cruzar a estrada da Reforma Agrária e ir até o campinho.

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“Vamos terminar naquela sombra”, avisou o professor, e vários da turma correram mais rápido para chegar logo ao destino final.

Sob os galhos da árvore, meu GPS marcava 1,76 km, a maior distância que qualquer um deles já tinha corrido na vida. Um feito, uma conquista para todos, que só queriam descanso.

Provoquei: quem quer dar a volta no campinho para completar dois quilômetros?
Parece que o cansaço se foi, porque alguns meninos e meninas que diziam estar “mortinhos” se aprumaram para o novo desafio.

31 B corrida 5 volta olimpica

E lá fomos nós para a volta olímpica no campo do assentamento do Boqueirão. Cada um de nós, disse a eles, podia se imaginar correndo numa pista, o público aplaudindo, vamo que vamo!!.

E assim chegamos de volta à nossa sombra tão querida, sob a árvore tão frondosa. E lá o professor, cercado da meninada, começou a fazer uma seleção dos atletas que vão representar a escola Antonio Conselheiro em uma próxima jornada.

31 C selecao

Mas isso é outra história.

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3 pensamentos sobre “Escola Antonio Conselheiro

  1. Parabéns as crianças e aos educadores, não só pela corrida como esporte, mas, por trazer para perto das crianças do campo e da reforma agrária, algo que só se vê em televisão, deixando a falsa noção de que não nos pertence, provaram que pode corre, competir, brincar e sorri.
    Parabéns! Parabéns! Parabéns!

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