Safra, a mãe de todos

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Colheita de melancia no assentamento Safra – Foto Eleonora de Lucena

Às seis e meia da manhã de hoje, o sol já queimava o lombo de um vivente como se fosse meio-dia. Eu corria pela rua 1, no assentamento Safra, e observava o terreno limpo de chão batido, as casas de alvenaria de um lado e outro da rua ampla, um bar aqui outro acolá, um mercado, cabritos buscando algo para mascar, um cachorro perseguindo meia dúzia de galinhas, senhoras varrendo a varanda, homens e mulheres saindo para o trabalho.

Um passante desavisado jamais imaginaria os momentos de tensão, nervosismo, violência, tiros, desespero e esperança vividos ali mesmo, há pouco mais de 20 anos. Na madrugada de 7 de agosto de 1995, milhares de despossuídos se aprochegaram para conquistar a terra. Foi o dia de cortar a cerca da fazenda Safra, então abandonada pela proprietária, a Etti, empresa do setor de alimentos.

Bem antes de o sol raiar, 2.204 famílias estavam do lado de dentro da cerca e logo começaram a se organizar. Preparavam-se para lutar, sob o comando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que então começava sua marcha para o sertão. A fazenda invadida fica em Santa Maria da Boa Vista, município pernambucano às margens do rio São Francisco, a cerca de 600 quilômetros do Recife.

Não houve paz naquela noite nem nos dias seguintes nem nos meses que se seguiram. Vieram as forças policiais, supostamente para cumprir mandado judicial, enquanto as lideranças do MST também tratavam de travar as batalhas legais possíveis. O verdadeiro combate, porém, se dava no campo, na decisão firme, irrevogável e irremovível dos trabalhadores rurais de não largarem mão do terreno.

“Era a polícia de um lado e os acampados de outro, no meio uma fogueira. Dali eles não passavam”, lembra dona Luzinete Santa da Silva, 48 anos, cinco filhos, que estava na primeira leva de ocupantes e hoje preside a associação do assentamento do Boqueirão, também instalado ao largo da Estrada da Reforma Agrária.

Na batalha oficial, a polícia fez ameaças e provocações, tentando lançar o medo e a incerteza entre os acampados, mas não chegou a atacar, apresentar armas ou disparar contra o povo. Já com a jagunçada, era diferente.

“Deram seis tiros no homem”, conta Luzinete. “Ele rolava no chão, os caras atirando, mas foi por Deus ou nem sei como, nenhuma bala pegou nele”, diz, relatando um ataque ao gaúcho Levi, uma das lideranças do MST que participaram dos trabalhos de organização da ocupação.

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Hoje há paz às margens do São Francisco – Foto Eleonora de Lucena

Foi tudo feito na surdina, mas com bastante precisão e apoio de trabalhadores de várias regiões. Reuniões preparatórias deixaram o povo ciente dos riscos que iria correr e também dos sonhos que estavam construindo, explica Adailto Cardoso dos Santos, 31, filho de quilombolas e hoje a principal liderança do movimento em Santa Maria da Boa Vista.

“Eu endoidei! Oxente! Não vou mais trabalhar pros outros. Não podia perder uma chance dessas”, diz Maria Eusa Alves da Silva, 61, lembrando o que sentiu quando, há mais de 20 anos, ficou sabendo da preparação da ocupação.

Ela vendia comida em feira, o marido trabalhava na roça de meeiro, nenhum deles tinha condição de sair, pesavam o risco, mas sonhavam com a esperança. “Mandei meu menino para segurar a vaga”, diz ela. E assim Valdevir, então com 16 anos, se tornou um dos pioneiros do MST em Santa Maria da Boa Vista.

Eles construíram a esperança ali mesmo na terra. “O pior era ouvir as críticas do pessoal de fora, que nos chamava de tudo. Mas tivemos coragem, resistimos, nunca tiramos o chapéu para a burguesia”, diz Irmão Tuca, apelido do pioneiro José Felisberto Silva, 55, que resume assim o dia do corte da cerca: “Foi uma coisa extraordinária!”.

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Pioneiro, Irmão Tuca hoje trabalha com agricultura orgânica – Foto Eleonora de Lucena

De fato, a experiência era inédita na região. Mas donos de terra, políticos, empresários e autoridades em geral teriam de se acostumar com a presença do MST na região. Começava a ser feita ali uma experiência de reforma agrária: de invasores e acampados, os pioneiros das 2.204 famílias passaram a donos de pequenos lotes. Nasciam os assentamentos.

Na fazenda Safra, os primeiros assentados começavam a limpar a terra, preparar o campo para o trabalho. Logo seriam construídas as primeiras casas, todas elas de alvenaria, financiadas pelo governo. Mas o espaço era pequeno para tanta gente. Pouco tempo depois da constituição do assentamento Safra, as famílias que não conseguiram lugar ali foram transferidas para outras áreas na região, ao lado da rodovia que hoje o povo do lugar orgulhosamente chama de Estrada da Reforma Agrária.

É por isso que o assentamento Safra é chamado de “mãe de todos”  –frase que está até no material comemorativo dos 20 anos do assentamento, festejados no início deste mês. Hoje, só na área do município de Santa Maria, há nove assentamentos ao longo da estrada da Reforma Agrária –um total de 15 em todo o município.

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Avenida arborizada no assentamento Safra – foto Rodolfo Lucena

Pois talvez muitos moradores do Safra, que tem ruas amplas –até algumas avenidas com árvores frondosas demarcando o canteiro central–, tenham sido picados pelo generoso espírito maternal. Pelo menos, a família que nos recebeu de braços abertos tem um coração de mãe: “A casa é sua”, nos dizem a toda hora dona Antônia Teodomira Gonçalves Leite e seu João Ângelo Leite.

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João e Antônia, eu e Eleonora – Foto Luiz Paulo Mota dos Santos

“Estou aqui desde o corte”, orgulha-se João, especialista na plantação de bananas e feliz proprietário de uma área irrigada –outra das conquistas dos assentados, que conseguiram levar a água do rio São Francisco para o outro lado da estrada, tornando fértil terreno que, de outra forma, estaria perdido para a plantação.

Foi da casa deles que parti hoje para minha corrida matinal no assentamento. Percorri os 1.200 metros da rua 1, fui até a rodovia, voltei para atravessar o assentamento inteiro, subir uma lombinha até o ponto mais alto do local –onde está instalada uma casa de orações–, descer para a avenida arborizada e pegar estrada pelo meio do roçado –mangueirais, bananais, roça de maracujá e outras tantas culturas–, para enfim chegar ao São Francisco.

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Casa de bombas que capta água para irrigar a lavoura – Foto Rodolfo Lucena

Cruzei por carneiros e cabras, cavalos, ovelhas e galinhas, cachorros de mais da conta. A certa altura, uma vaca e seus bezerros saltaram para o meio da estrada, talvez assustados com meu trote vermelho –vestia hoje a camiseta da seleção da República Popular da China. Me olharam e fugiam, eles corriam e eu corria atrás, num pega-pega animal…

Fui até o rio, descansei a vista nas águas poderosas, passei por jovens e veteranos que iam para o trabalho na roça e retornei para o assentamento. Logo iria visitar a escola do local.

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Filho de quilombolas, Adailto é o líder do MST no município – Foto Eleonora de Lucena

Tudo aqui nos assentamentos tem sido uma descoberta para mim, mas a maior alegria talvez seja as conversas com os escolares, que também são um grande orgulho do Movimento dos Sem Terra. “Não há aqui nenhuma criança sem escola”, afirma Adailto.

A preocupação com a alfabetização da meninada e com o ensino formal é das maiores, mesmo nos momentos de luta, risco e confronto. “Escolhemos uma professora, que deu aula debaixo de uma mangueira”, conta Irmão Tuta rememorando os primeiros dias depois da ocupação da fazenda Safra.

Lá estudaram o sem-terrinha de primeira hora que, mais tarde, puderam abrir seus livros e cadernos nos confortáveis prédios da escola municipal Francesco Mauro, que hoje visitei.

Diferentemente de outras escolas, nomeadas em homenagem a figuras como Antonio Conselheiro, esta leva o nome de um filho de latifundiário. Explica-se: foi construída na década de 1980, quando o local ainda era uma fazenda. Para evitar burocracias e deixar a escola operante mais rapidamente, o nome foi mantido.

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Corrida com alunos do período da manhã – Foto Eleonora de Lucena

Mas não importa, porque os professores parecem todos comprometidos com as lutas locais e com levar às crianças um ensino que preze as tradições de nosso país. Quando cheguei lá, por exemplo, toda a garotada do ensino fundamental 1 estava mobilizada para um dia de apresentações folclóricas.

Professores e alunos fizeram a festa, que incluiu danças, apresentações de trava-língua e até uma cantoria de reizado –um das professoras faz parte de um grupo de dançadoras e trouxe para a meninada algumas canções do folguedo. Até a merenda era feita de comidas típicas –provei um divino munguzá, creme quentinho feito com milho, coco, canela, creme de leite e leite condensado. Não sei se é verdade, mas ouvi dizer que faz muito bem para corredores…

De minha parte, depois de rainhas e princesas, gnomos e anões, apresentei à turma, do alto de minhas barbas brancas, a figura do Papai Noel corredor. Com pouco papo e muita ação, partimos logo para o grito de “Vamo que Vamo!” e fomos queimar o chão do assentamento Safra.

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Alunos da tarde também participaram de corrida do projeto MARATONANDO COM O MST – Foto Eleonora de Lucena

Horas mais tarde, voltei para a escola, desta vez para uma conversa com o pessoal mais velho, da segunda etapa do ensino fundamental. Papo vem, papo vai, partimos também para o pernas-para-que-te-quero, agora fazendo caminho mais longo, contornando alguns quarteirões.

Três garotos dispararam na frente como gente grande, parecendo quenianos a não tomarem conhecimento dos perseguidores. Quando eu enfim cheguei à escola, acompanhando alguma meninas e garotos menos rápidos, lá estava eles a me esperar para contar a façanha: “Fui o primeiro!”, gabou-se o campeão, e logo o segundo e o terceiro colocado se apresentaram.

Para que a história registre, vai a seguir a foto dos líderes incontestes da primeira corrida do turno da tarde da escola do assentamento Safra, “mãe de todos”. De camisa azul, Felipe Napoleão, 10, foi o campeão, seguido por José Nielson, 12 (camiseta branca listrada) e Diogo Francisco, 9.

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Campeões da corrida vespertina – Foto Rodolfo Lucena

Vamo que vamo!

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Um pensamento sobre “Safra, a mãe de todos

  1. Parabéns Rodolfo, pela reportagem muita boa. Olha o Munguzá é para corredores porque o milho é rico em carboidrato eu não uso leite condensado e creme de leite, uso sim rapadura ou açúcar mascavo.
    Abar aço
    Aurelio so amigo do Heroi Fung.

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