Corrida da Vitória

03 A ABRE mesmo

Fotos Eleonora de Lucena

De pés descalços, chinelos de dedo, tênis furados e até calçados mais arrumadinhos, cerca de 80 crianças e jovens participaram hoje da primeira Corrida da Reforma Agrária em Santa Maria da Boa Vista, no Vale do São Francisco, sertão pernambucano.

Esse nome pomposo estou dando agora, porque a corrida mesmo não teve nome nem sobrenome, não teve inscrição nem pórtico de largada. Teve, sim, muito suor, alegria e disposição da meninada para enfrentar a poeira e o asfalto, muitos pela primeira vez experimentando fazer uma jornada tão longa.

Foi o momento culminante do projeto MARATONANDO COM O MST no primeiro município por onde passa a estrada da Reforma Agrária, que tem uma fieira de assentamentos ao longo de seu percurso.

Depois de uma participação no Boqueirão e outra no Safra –a “mãe de todos”, pois foi lá que o povo cortou a cerca da fazendo e ocupou a região, há pouco mais de 20 anos–, agora o Maratonando se foi para o assentamento Vitória, onde nos esperava o pessoal da Escola Marcos Freire.

03 A saida 1

Trata-se de uma escola muito especial para o esporte e, especialmente, o atletismo da região. Isso porque o descobridor de talentos Marciano Barros, 37, dá aulas regulares e ainda desenvolve um projeto de “brincar de atletismo”, como ele gosta de chamar, apresentando às crianças os ensinamentos básicos das diversas modalidades.

Falei que o cara é descobridor de talentos porque ele tem no currículo um monte de medalhas de ouro e prata conquistadas por para-atletas que orienta. Também foi quem percebeu o pendor de Edson Amaro para a corrida de longa distância –o garoto de 31 anos foi o melhor brasileiro na última maratona do Rio e briga para estar presente nos Jogos do Rio-2016; índice olímpico já tem, agora precisa melhorar para garantir a vaga.

Às crianças que já nos esperavam no local foram se juntar outras, chegando de ônibus vindas de assentamentos próximo, como o Aquarius e o Boqueirão. Garotos e moças mais velhos também se aprochegaram quando trilou o apito do professor Marciano, chamando o povo para seu reunir atrás das bandeiras do município, do Estado de Pernambuco e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

03 A saida bones cruzeiro

Era uma algaravia só, mas havia uma pessoa que apenas sorria, tranquilão, olhando todo aquele movimento. Trata-se de Luiz Paulo Mota dos Santos, da área de educação do MST, que passara os últimos dias percorrendo as escolas da região, conversando com professores de educação física e diretoras de unidades, chamando para esse evento que virou uma espécie de filho dele.

Com um grito de “Vamos!”, o filho nasceu. Começava a primeira corrida interassentamentos, saindo do Vitória, que reúne 240 famílias de trabalhadores rurais, ex-despossuídos, hoje donos de pequenos lotes onde produzem frutas e verduras.

03 A saida 3

Saímos pela rua principal do assentamento, pura areia, e logo passamos para a estradinha de chão batido que serve de comunicação entre o Vitória e o assentamento Brilhante, logo ao lado. Lá são 51 famílias a produzir.

Tínhamos explicado para a criançada que se tratava de uma corrida participativa, que não era uma coisa para competir, e sim para festejar. O legal seria ir todo mundo junto e tal e coisa e coisa e tal…

Ouviram muito atentos, mas certamente estavam pensando: “Onde já se viu corrida sem competir?? Corrida é para correr!!!” E assim alguns se desgarram do lote e se mandaram para a frente, mostrando que o professor Marciano tem razão em buscar na região futuros profissionais do atletismo.

03 A nao competitiva

Conto aqui um segredo: eu estava muito preocupado com essa corrida, pensando em tudo o que poderia dar errado. Era o primeiro evento do gênero, a criançada nunca tinha participado de algo semelhante, o Luiz Paulo nunca tinha organizado uma coisa assim, não havia presença de autoridades nem nada, e a gente iria, tal como fizeram os primeiros agricultores sem terra que aqui aportaram, ocupar de um todo a estrada da Reforma Agrária. Imagine se acontece algum acidente.

Pois foi tudo uma beleza de organização. Um carro-madrinha saiu à frente, servindo de sinalizador para avisar veículos vindos de outro lado sobre a chegada dos corredores. A ideia era que todos ficassem para trás, protegidos pelo carro.

03 A onibus perto

De vez em quando, algum menino se desgarrava, mas depois se juntava ao grupo. Quando eu via algum mais à frente, ficava preocupado.

A sorte é que, apoiando a primeira Corrida da Reforma Agrária e participando da atividade de corpo presente, estava o corredor Justino Pedro, campeão da última corrida Cidade de Aracaju e quarto colocado no Circuito Brasileiro de Corridas no ano passado.

De vez em quando, ele servia como um pastor de ovelhas desgarradas (ou cabritos rebeldes, já que estamos em uma área de caprinocultura) e dava uma disparada até a frente, chamando a meninada mais entusiasmada a esperar pela turma mais lenta.

03 A serelepes

Havia também o ônibus-prego, dirigido por Gilmar de Barros, que fazia a proteção no fundão, recolhendo os garotos que não aguentaram o calor e a distância –só na primeira puxada, até chegar ao asfalto, foram mais de dois quilômetros.

Além disso, tinha gente que nem sequer conseguia chegar até o ônibus, mas queria continuar correndo e caminhando. Estes foram protegidos por ainda um carro, dirigido pela própria diretora da escola, dona Letícia. Na carona dela, distribuindo água para os retardatários, estava ninguém menos do que o já citado Edson Amaro, que, depois, me garantiu: “Vai ter um nordestino na maratona olímpica”.

Quando ganharam o asfalto, os corredores se entusiasmaram. Professor Marciano e o organizador Luiz Paulo trataram de conter os ânimos. Alguns corredores da escola ficaram de abre-alas, levando as bandeiras do Estado e do MST, para garantir que o grupo seguisse unido.

O sol já ia forte, mesmo àquelas primeiras horas da manhã. Mesmo assim, o povo queria continuar seguindo pela estrada, ainda que muitos já dessem sinais de cansaço. Quando passamos pelo caminho que dá acesso ao balneário Vitória –praia linda às margens do São Francisco, decidimos voltar rumo à escola Marcos Freire para encerrar a jornada.

03 B sob a arvore

Foto Rodolfo Lucena

Foi uma medida bem acertada, pois o cansaço já estava abatendo muita gente. Tanto que, logo ao descer pela estrada de terra, todo mundo resolveu aproveitar a sombra de uma árvore para um descanso rápido. Já que estava todo mundo junto, houve até oportunidade para uma foto da galera.

No meio do sertão, tivemos uma visão entristecedora. Enormes canos de um gigantesco sistema de irrigação existente no passado, estavam secos: a água foi cortada já há muito tempo pela empresa de abastecimento. Um reservatório está vazio, máquinas e motores enferrujam numa casa de bombas, e toda uma região que poderia ser muito mais produtiva foi deixada ao léu.

03 b canos

Foto Rodolfo Lucena

Pelo que me contaram as crianças, durante a corrida, para uso doméstico o assentamento recebe hoje água de caminhões pipa. E, para a roça, foi montado um sistema de irrigação alternativo.

Dá certo, como evidenciam as lavouras ao longo da estrada de chão batido. Mas poderia ser melhor.

A meninada corredora nem se dá conta. Depois de poeira, asfalto e suor, finalmente chegamos de volta à praça em frente à escola do assentamento Vitória. Terminou a corrida da reforma agrária. Para cada um dos filhos e filhas de assentados que participaram, foi também a Corrida da Vitória.

03 A chegada

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Um pensamento sobre “Corrida da Vitória

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