Casa grande e escola

04 A abre mesmo

Foto Eleonora de Lucena

“Vieram 250 policiais, caminhão de bombeiro, ambulância, marinha. Só não veio avião. O resto veio completo”, conta Enoque Afonso da Silva lembrando os feitos do dia 11 de julho de 1998, o primeiro despejo do povo que invadira a fazenda Agroisa, no município de Lagoa Grande, sertão pernambucano.

Menos de uma semana antes, 450 famílias vindas da região e até de mais longe haviam tomado a gleba. Às cinco da manhã de cinco de julho, cortaram o arame da fazenda.

“Aqui não tinha mais quase nada”, afirma Enoque, contabilizando apenas uns restos de plantação de manga que ainda eram mantidos pelos proprietários. As instalações para beneficiamento de aspargos e da mamona, especialidade da propriedade, já estavam paradas havia muito tempo.

04 B enoque

Foto Rodolfo Lucena

As famílias, que chegaram em vários ônibus, caminhões e a pé, muitas vindas da ocupação de Aracapá, trataram logo de instalar seus barracos na beira no rio, transformando pedaços de galhos em moirões para sustentar lona.

Não deu tempo para muito mais do que isso. Não tinham nem chegado a botar a enxada na terra quando aconteceu o primeiro despejo, que envolveu muita tensão, choque de vontades, mas nada de briga nem pancadaria.

A polícia chegou com ordem judicial, os ocupantes acataram.

Mais ou menos. Espalharam-se pela região como podiam, alguns acreditando que ainda era possível tomar a terra, outros já assustados, desestimulados. Afinal, muitos haviam até passado fome naqueles primeiros dias. Na hora do desespero, a multidão chegou a ocupar a rodovia e saquear caminhões para colocar comida na boca das crianças e sustentar os moradores até que conseguissem produzir seu próprio alimento.

Mesmo assim, mais da metade da turma inicial decidiu continuar a luta. No dia 13 daquele mesmo mês, dois dias depois do despejo, 250 famílias voltaram para o local, cortaram o arame e se instalaram na área, sonhando em transformar terra seca em terreno produtivo.

04 B acampados taipa ampla

Foto Rodolfo Lucena

O proprietário da fazenda, que era dono de outros dois latifúndios em Lagoa Grande, tratou de jogar a força da lei. Conseguiu mais uma ordem de despejo, bem quando os acampados já tinham começado pequenas roças, imaginando que logo teriam o fruto de seu trabalho.

Nada.

Com a força da polícia ao lado, chegaram homens com tratores que botaram tudo abaixo. Derrotaram até a vontade de lutar de muitos daqueles que lá estavam. “Ficamos só com 15 famílias”, lembra Enoque, de 42 anos. “O resto se foi tudo, cada um para um lugar.”

O que não significa que não houvesse precisão de terra nem vontade de trabalhar. Organizados pelo MST, logo chegaram outros candidatos àquela terra não disputada. “No dia 16 de dezembro, viemos com 150 famílias. A gente tinha de dar conta ou perdia”, diz Enoque, que ainda hoje mora no acampamento Agroisa.

Por conta do respeito às festas ou sabe-se lá por quê, o proprietário das terras abandonadas ao léu deixou os acampados em paz durante o Natal e Ano Novo.

A coisa então foi ficando organizada, ainda que nas mais precárias condições. Barracos foram erguidos numa área de mangueiras, na beira do rio São Francisco. Foi montado um palco de onde os coordenadores do grupo comandavam as assembleias da comunidade. Também foi estendida a lona preta para cobrir a escola dos acampados.

04 B cicero mnga e aju vale este

Foto Rodolfo Lucena

“Esse cajueiro e essa mangueira foi minha mãe quem plantou”, mostra Cícero Afonso da Silva, professor de história formado na Universidade Federal da Paraíba graças a projeto desenvolvido pelo MST –e à sua capacidade de estudar, por certo. Casado, pai de uma menina de três anos, ele não só nos hospedou na sua casa, no acampamento, como serviu de guia hoje pelos caminhos da Agroisa.

Cícero chegou ao local em janeiro de 1999, quando estava na quinta série –hoje tem 29 anos. Conta que, antes de o acampamento fazer um ano, o proprietário ainda conseguiu ordem para um terceiro despejo, mas foi o último.

Dali em diante, nunca mais os acampados foram incomodados, ainda que não tenha avançado muito o processo para que o local seja transformado em assentamento. Duas outras fazendas dos mesmos proprietários, que estavam com muitas dívidas, já abrigam hoje assentados, cada família com posse registrada. Na Agroisa, ainda há muito improviso.

Não há divisão exata de glebas para as 50 famílias que acabaram ficando no terreno de 370 hectares nem casas para todos. Algumas das famílias vivem em moradias que foram usadas pelos trabalhadores da região, outras montaram casas de barro numa antiga área de oficinas e há ainda os que ficam num espaço coberto do outro lado da estrada da Reforma Agrária.

04 B rio bombas

Foto Rodolfo Lucena

Apesar da precariedade de boa parte das moradias, o trabalho na terra segue firme e produtivo. Há plantações de manga e mamão  –em muitas glebas, as duas culturas são criadas irmanadas; quando o mamão perde a força, a manga já está em idade de produzir, lotes de produção de cebola, goiaba e banana. Há até cinco hectares produzindo capim para forragem –“É um senhor que gosta muito de vaquejada”, explica Cícero.

Grande parte da área plantada é irrigada pelas águas do São Francisco –com seis quilômetros de encanamento, uma adutora tem vários ramais na área mais próxima ao rio e ainda segue sob a rodovia, indo despejar sua fonte de vida em um reservatório que serve aos terrenos da área conhecida como sequeiro.

04 B vista geral

Foto Rodolfo Lucena

Na minha caminhada, de manhã cedinho, tive visão que agrada a qualquer corredor. Verde de um lado, verde de outro, morro lá longe –o Dois Irmãos, já na Bahia– e estrada de chão batido para soltar o chinelo. Por ela fui até o São Francisco, de lá voltei e fui encontrar, mais tarde, a criançada da Escola Municipal Jaime Coelho Bonfim.

A escola fica num prédio imponente, que serviu para o abrigo de religiosos em meados da década de 1960 –era um patronato, segundo me conta um dos professores, destacando que o registro das datas não é muito preciso. Cerca de 20 anos mais tarde, a igreja vendeu as terras para o empresário que constituiu a Agroisa e passou a morar no belo edifício de dois andares.

04 B casa grande

Foto Rodolfo Lucena

Pois a casa grande foi transformada em escola, que hoje atende a 92 alunos, do maternal ao quinto ano –o Ensino Fundamental 1, como se diz hoje em dia. Eles têm aulas pela manhã  –nos dias de atividades extracurriculares, como dança, trabalhos com artes e idiomas e esporte, ficam até mais tarde, recebendo almoço além da merenda do primeiro período.

Na hora do recreio, depois do lanche, saem todas desembestadas por onde houver espaço. Brincam e pulam, se empurram e se abraçam, conversam e cantam. Algumas meninas disputavam a antiga brincadeira do elástico bem defronte a um painel marcante na história do prédio.

04 A mural com elastico

Foto Eleonora de Lucena

Há uns cinco anos, o professor Fabiano da Silva, cujos pendores artísticos já serviram até para a equipe de muralistas do MST, veio dar uma oficina de artes plásticas na escola. Vários estudantes de História, como ele, acompanharam o evento. No final, Fabiano preparou o risco do painel, e toda a turma saiu a pintar –“Tem dedo de muita gente ali”, diz Cícero.

04 A Vovo VA

Foto Eleonora de Lucena

Pois quase todo o estudantado se reuniu nesta manhã comigo. Sentados numa varanda do predião, conversamos sobre corrida, futebol e atividade física para a família. Diversos meninos e meninas contaram que têm irmãos e irmãs que já conquistaram medalhas em corridas de rua na região.

“Eles se saíram muito bem no atletismo nos Jogos Escolares do ano passado”, orgulha-se a coordenadora pedagógica Erisvalda Ester da Silva, 32, que mora ali mesmo no Agroisa—sua família é uma das acampadas na gleba.

04 A corrida

Foto Eleonora de Lucena

Pois parece mesmo. Do jeito que correram, aqueles meninos e meninos só precisam de incentivo e persistência para se darem muito bem em qualquer esporte que queiram praticar –tomara que a corrida de rua venha a ser escolhida.

Vamo que vamo!!!

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Um pensamento sobre “Casa grande e escola

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