Morte no portão

05 A corrida de frente abre geral

Fotos Eleonora de Lucena

Depois de um dia de trabalho, José Arnaldo da Silva chegou em casa para ser morto. Técnico em agropecuária e professor do programa Saberes da Terra, ele transmitia seus conhecimentos aos alunos da escola do assentamento Catalunha, em Pernambuco, onde vivia e que ajudara a conquistar.

Desceu da moto e se dirigiu para casa. Abriu o portão, mas mal conseguiu entrar no terreno pelo qual lutara tanto. Dois ou três homens –nunca vai se saber quantos—dispararam contra Arnaldo.

Se erraram algum tiro, a perícia não esclareceu. Aos 38 anos, Arnaldo caiu fuzilado no portão no dia 23 de abril de 2010.

Não foi briga pela terra nem coisa de latifundiário, dizem amigos e conhecidos, mas obra de bandidos. Grupos de exploradores estavam tentando se aproveitar dos assentados na Catalunha, gleba ocupada em 1996 e que, na época do crime, em 2010, já era produtiva e bem organizada.

José Arnaldo não admitia esse tipo de corrupção na comunidade. Já tinha denunciado a existência de equipamentos roubados na área, conquistada com muita luta pelos trabalhadores rurais. Os bandidos resolveram se vingar e fizeram a emboscada, segundo informações da polícia pernambucana.

O professor era um dos líderes na comunidade, que começou a ser construída com a ocupação, em 1996, de enorme área improdutiva. Anos antes, segundo os assentados, os proprietários tinham no latifúndio –6.900 hectares—uma enorme plantação de tomates.  Mas já fazia tempo que os donos –o grupo empresarial do ex-governador baiano Antônio Carlos Magalhães, segundo contam dirigentes da comunidade—pareciam ter esquecido da gleba.

Aquilo era um verdadeiro acinte frente à quantidade de famílias sem terra que viviam na região, muitas passando fome ou trabalhando de sol a sol, a mando de patrão, para conseguir minguado pagamento. Assim proclamava um dos organizadores dos trabalhadores sem terra na região, enquanto fazia o trabalho de base preparatório à tomada da fazenda.

Na madrugada de 7 de setembro de 1996, 80 famílias concentradas no assentamento Vitória, no município de Santa Maria da Boa Vista, partiram em ônibus, caminhões e lombo de burro. A fazenda Catalunha foi ocupada, lançando brisa de esperança na região.

Mais: ventania. Em poucos dias, aquelas 80 famílias já tinham se transformado em 800. Sofreram pressões, ameaças, mas resistiram. As centenas de famílias se organizaram para sobreviver e produzir, montando barracos na beira do rio São Francisco.

05 A presidente associacao

“A escola foi construída pelo movimento, de tijolinho e palha”, conta Adelmir Antero Carvalho, que foi um dos coordenadores na época da ocupação e hoje preside a associação dos assentados no projeto Catalunha.

“Me desafiei”, conta ele, que era recém-casado na época e hoje tem 41 anos. “Não havia possibilidade de sustentar a família trabalhando no lote de meu pai”, diz, explicando que a família recebera uma parcela de seis hectares em um projeto de irrigação na região. Assim, criou coragem e entusiasmo para enfrentar o que viesse pela frente.

Logos nos primeiros dias, assumiu tarefas nas comissões que se formavam para orientar a vida no acampamento. “Havia vigilância todos os dias, foi um momento de as pessoas se conhecerem”, diz Adelmir, que hoje tem em seu lote 1.500 pés de goiaba, que cuida sem o uso de agrotóxicos.

Antes de chegar à estabilidade, ele se converteu em militante da causa, indo ajudar outros acampamentos e trabalhando onde o movimento precisava. “No dia em que nasceu meu filho, 18 de maio de 1998, eu estava em um saque em Cabrobó, a situação lá estava difícil”, conta o líder dos assentados.

Formado em pedagogia, especialista em educação de jovens e adultos, em 2010 era o diretor da escola do assentamento, exatamente a mesma em que José Arnaldo dava aulas. Lembra que o companheiro era um educador dedicado, disposto a compartilhar seu conhecimento não só com alunos mas com outros agricultores –aliás, o líder assassinado chegou a participar de projeto de formação de trabalhadores na Venezuela.

A morte do professor –crime até hoje não esclarecido—entristeceu amigos e vizinhos. A família de José Arnaldo desistiu de ficar na Catalunha, foi procurar outros territórios, com o apoio de parentes.

A lembrança do trabalho de Arnaldo, porém, ficou viva na comunidade. Tanto é verdade que, na tarde da última sexta-feira, participei de uma breve corrida com alunos da Escola Municipal Professor José Arnaldo da Silva. Ela funciona em um prédio novinho, inaugurado em 27 de fevereiro passado com festa da comunidade e presença de autoridades locais.

Os prédios abrigam oito salas de aula, cozinha, sala dos professores, biblioteca e sala de informática, um saguão com coreto para reuniões –resultado de investimento de mais de R$ 1,5 milhão.

Quem vê o conjunto de edifícios bem pintados não imagina o quanto de luta foi preciso para que a escola fosse construída ali, na divisa do assentamento Catalunha com a comunidade Jatobá.

A campanha começou quase dois anos antes, por causa da precariedade das instalações da escola da Catalunha. “As paredes do banheiro estavam comidas pelo sal, tinham buracos enormes. Quando as crianças sentavam no vaso, de fora dava para ver as perninhas delas”, lembra Adelmir.

Ele e outros companheiros da comunidade começaram campanha para fazer com que o município assumisse suas responsabilidades e fizessem a reforma. “Eles vieram um dia e começaram o trabalho. Vieram pedreiros, havia material e tudo. Construíram umas paredinhas assim, um metro ou nem isso, e foram embora.”

Mal dá para dizer que melhoraram alguma coisa, os banheiros ficaram foi em triste condição. A comunidade ainda aguardou por algum tempo, acreditando que a prefeitura seguiria com a obra.

Até que não suportaram mais. Reunidos em frente à construção abandonada, os moradores ligaram para o secretário da Educação: ou ele chegava ali em meia hora e trazia uma solução, ou os moradores iam botar tudo abaixo.

“O secretário chegou 40 minutos depois, com duas viaturas de polícia. Achava que ia nos intimidar. Só encontrou poeira, as paredes já estavam todas no chão”, lembra Adelmir.

Ali recomeçaram as negociações entre a comunidade e o município. Em pouco tempo, a escolinha local –extensão da escola Duque de Caxias—estava reformada. E havia a promessa de construção de outra, maior, com melhores condições para atender ao alunado.

Quando chegaram as verbas para a obra e era a hora da definição, porém, a situação se complicou. Um político local queria levar a obra para seu curral de votos, em uma região onde havia exatos 33 alunos e era muito afastada dos assentamentos onde havia a maior demanda por ensino.

“Compramos uma briga e fechamos as duas BR, fechamos o dia todo, as duas. Parou. Aí o governador mandou o secretário convidar a gente para uma reunião”, lembra Adelmir.

Era o início do ano passado, e as lideranças dos assentados e do MST se reuniram com o então governador Eduardo Campos. Deixaram claro sua posição. “Não vai fazer lá. Não vai mesmo. Se fizer, nós derrubamos”, advertiram na época.

Mostraram ao governo estadual as maracutaias que consideravam existir na escolha do local. As negociações deram resultado, e as obras se encaminharam para atender à vontade dos moradores, e não a interesses eleitoreiros.

05 A corrida costas mais gente

Nos belos prédios inaugurados no início do ano hoje estudam 428 alunos, e trabalham 23 professores, mais pessoal de apoio. Além das aulas regulares, os estudantes recebem formação em técnicas rurais, artes, teatro, dança e esporte.

Há até espaço para uma corrida alegre e divertida com um velho maratonista vindo do sul.

Vamo que vamo!

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