Família da ilha

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Corrida na Ilha do Pontal, Lagoa Grande – Foto Olavo Marques de Sá

A partir das cinco e meia, quinze para as seis, o motoqueiro já desembesta pelas três ruas da vila principal do acampamento Agroisa, mantendo firme a mão na buzina, que grita endoidecida: biii!-biii!-biii!. De vez em quando, alterna o estardalhaço com gritos ritmados, em tom mais grave: “Pããão! Pããão!”

Não sei se consegue clientes. Por certo deve ter fregueses, pois a maior parte dos trabalhadores que moram no acampamento já está acordada. Eu também já levantei há tempos, mas, mesmo assim, tenho vontade de sair correndo e apertar o gogó do cara, segurar a buzina, parar com a barulheira toda.

Nada! Sou da paz! Saio correndo é para minha última carreira entre os assentamentos, acampamentos e vilas de Lagoa Grande, município pernambucano “filho” de nossa já conhecida Santa Maria da Boa Vista. De fato, acabou de fazer 20 anos, tal e qual o assentamento Safra –em 2010, tinha cerca de 23 mil habitantes, divididos quase meio a meio entre as áreas urbana e rural.

Meu percurso é pela Estrada da Reforma Agrária que, neste trecho, por interesses econômicos e turísticos, leva o nome de Estrada da Uva e do Vinho, por causa de alguns latifúndios e vinícolas instalados na região, mais perto do povoado conhecido como Vermelhos –alusão a um antigo morador da área e à cor da terra.

Apesar disso, tal como no vizinho município, aqui a estrada corta uma fieira de acampamentos e assentamentos. Com menos de um quilômetro e meio de corrida, passo pelo acesso ao assentamento Abreu e Lima, que não visitei, mas, pelo que me contaram, é um dos mais sofridos da região.

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Terra seca à beira da estrada; em Abreu Lima, é pior – Foto Rodolfo Lucena

Começa pela área em que foi instalado: está lá no território conhecido como sequeiro, área sem irrigação natural, mais distante das benfazejas águas do rio São Francisco. Não seria tão ruim, me dizem técnicos em agropecuária, se as famílias lá instaladas tivessem experiência em trabalhar com as condições dadas –investindo, por exemplo, em criação de cabras e culturas adaptáveis à terra seca.

Tal como a maior parte dos assentados, porém, são agricultores que desde pequenos aprenderam a trabalhar com a molha, com solo irrigado. As 50 famílias que lá foram instaladas, contam lideranças locais do MST, estão um tanto perdidas: carentes de ajuda governamental, não têm sequer as casas que todos os assentados dos programas de reforma agrária recebem. Com o dinheiro inicialmente recebido pela comunidade, foi possível construir 15 moradias; complicações burocráticas até hoje emperram a liberação do restante das verbas.

Para piorar as coisas, nadica de nada de sistema de irrigação com adutora. A comunidade é atendida por caminhões pipa –o que deixa a região dependente de empresas e políticos, conforme dizem lideranças com quem conversei. “Tem muita compra de voto, muita, muita, é um absurdo”, disse o presidente da associação dos moradores do assentamento Catalunha, Adelmir Carvalho, referindo­-se a todas as manobras, pressões e chantagens a que os assentados são submetidos.

Se não têm o básico, que é água para beber e usar no plantio, o que dizer de outros serviços básicos que o município ou o Estado deveriam fornecer? Na maior parte dos assentamentos que visitei, por exemplo, não há coleta de lixo.

Cada família cuida do seu, e os restos coletivos vezes ficam espalhados pelas vilas e beira da estrada –em alguns locais, é triste ver sacos plásticos e garrafas de refrigerantes rolando pela terra seca.

Também não há esgoto  –todos os que visitamos usam fossas sépticas bem construídas, pois não há cheiro nem dejetos pelo chão.

A água encanada, existente em todos os assentamentos que visitamos, não vem de empresa pública que forneça tratamento ou organize o encanamento. Em geral, a própria comunidade providenciou as instalações e o serviço de bombeamento, e as vilas convivem com a necessidade de economizar e com a própria carência do líquido: em diversos locais, as bombas são ligadas dia sim, dia não.

Enquanto corro, lembro essas histórias; olho para terra, que parece declamar o texto de Euclides da Cunha: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. De fato, há que ter decisão e fortaleza de braço e de espírito para viver longamente e prosperar nessa região.

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Trabalhador espera transporte à beira do caminho – Foto Rodolfo Lucena

É preciso acordar cedo, como o motoqueiro do pão, e aceitar vicissitudes com galhardia, como o sujeito que encontrei sentado à beira do caminho no trevo de que dá acesso ao povoado de Vermelhos. Enquanto fazia uma foto do agricultor, ele me contou que morava ali pertinho, num acampamento de sem teto, e esperava carona para seguir até a fazenda Milano, onde iria trabalhar o dia todo.

Era uma encosta de morro, o da Boa Vista, que daria acesso para o povoado de Vermelho. Já contava cinco quilômetros no meu GPS quando passei por uma pequena vila, algumas casinhas de alvenaria encabritas na serrinha, entre os barracos de taipa e algumas moradas de lona.

Mais tarde fico sabendo que as moradas são construções mais antigas. Originalmente, seriam destinadas a abrigar vítimas de hanseníase –lepra–, mas, segundo me contam, os doentes nunca chegaram a usufruir dos tetos. Pelo menos, não estão abandonados e servem de abrigo a quem precisa.

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Vermelhão tem a água mais gelada do mundo, acho eu – Foto Rodolfo Lucena

Logo em seguida, fiz uma parada no posto Vermelhão, onde bebi a água mais gelada da minha vida, coisa muito gostosa, talvez pelo fato de eu já estar correndo havia mais de meia hora sob o sol nordestino, que vem com tudo assim que se alevanta no horizonte.

Dali conseguia avistar o povoado de Vermelhos quase inteiro, com  destaque para a avenida principal que, no dia anterior, havia sido palco do desfile cívico de homenagem à Independência. Dezenas de escolas da região participaram do evento, com a estudantada devidamente uniformizada, batendo firme e orgulhosa o pé no chão.

Havia bandinhas e demonstrações de habilidade na evolução com fitas e aros. A meninada mais novinha era de emocionar, carregando o Brasil no peito em grandes letras verdes. A passeata se estendeu por várias horas, ganhando a noite, quando enfim vi desfilar meus pequenos amigos da escolinha da Agroisa –tive a alegria de alguns deles ainda lembravam o “Papai Noel Corredor”; espero que aquela nossa breve e empolgada corrida também lhe fique na lembrança, para que saibam que futebol não é tudo na vida.

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Desfile de estudantes em Lagoa Grande – Foto Eleonora de Lucena

Como ali havia gente de muitas áreas do município, conversando com um e com outro acabei descobrindo que muitos já consideram mesmo a corrida uma boa forma de promover encontros da comunidade e de incentivar as famílias a buscar mais saúde.

Já sabia, por exemplo, que o pessoal do Agroisa promovera uma minimaratona para festejar um dos aniversários do acampamento, há alguns anos. Agora, enquanto a meninada desfilava, encontrei um dos organizadores de uma corrida em um assentamento que, segundo me dizem, está montado em local paradisíaco.

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Minha corrida de 7 de setembro e a ilha do Pontal, no rio São Francisco

É a ilha do Pontal, um pedaço de terra fértil de cerca de onze quilômetros de extensão quase na cara do porto de Vermelhos. Lá desde 1994 a terra é de quem nela trabalha: o governo estadual comprou as terras em os trabalhadores labutavam como meeiros, loteou e assentou 169 famílias em uma gleba de cerca de 800 hectares.

E foram essas as famílias homenageadas e congraçadas na Primeira Semana da Agricultura Familiar, realizada em julho último. Houve feirinha mostrando a produção local, que é muito rica: há maracujá, acerola, banana, coco, goiaba, laranja, limão, mamão, manga, melancia, melão, pinha, romã, uva e é melhor eu parar por aqui.

Também foram realizadas oficinas e cursos rápidos de criação de galinha e agricultura orgânica, segundo me disse um dos organizadores do evento, o vereador petista Olavo Marques de Sá, 44, cuja família é assentada na ilha, onde produz manga e cria peixes.

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Corrida sob o sol na Ilha do Pontal – Foto Olavo Marques de Sá

O ponto culminante foi a festa com a primeira corrida da Ilha do Pontal. Apesar de o evento ser novidade, a carreira teve uns 25 participantes, calcula Sá. A maioria, porém, desistiu antes de completar os sete quilômetros do percurso –mais um sinal de que o povo da região precisa de um programa organizado e permanente para manter a força e conquistar mais saúde e energia.

Como entusiasta das corridas, saí feliz da vida com a conversa, pois o dirigente me adiantou que pretendem tornar permanente a presença de uma provinha –minimaratona, como chamam por aqui—no congraçamento dos assentados na Semana da Agricultura Familiar.

E a lembrança da conversa foi me dando mais energia e fazendo com que meus pensamentos voassem enquanto eu, solitário, fazia na manhã de ontem minha carreira de volta para me despedir do povo de Agroisa. Que tal fazer uma São Silvestre cá nos assentamentos de Lagoa Grande e lá nos de Boa Vista?

Olha que a ideia se grudou nos meus passos e fui correndo com ela asfalto afora, já bolando percursos, imaginando prêmios e organizando –em pensamentos—corridinhas de preparação para o grande evento de final do ano.

Com os pensamentos voando, mal percebi que já chegava ao assentamento de Ouro Verde, um dos mais ricos e bem sucedidos na região. No dia anterior, tivera a satisfação de conversar om “seu” Bartô, um dos pioneiros na área, homem de fibra, bom de lavoura e ótimo de conversa –sabe como ninguém contar as alegrias e as agruras do trabalhador rural.

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Seu Bartolomeu e a terra que precisa de irrigação – Foto Eleonora de Lucena

“Cortei o arame na fazenda Safra”, diz o piauiense de 67 anos que tem por nome completo Bartolomeu José da Silva. Como havia muita gente na ocupação conhecida como “mãe de todos”, seu Bartô levou seu pessoal para outra gleba, que mais tarde veio a se tornar o assentamento Ouro Verde, em Lagoa Grande.

A terra só foi conquistada depois de muita luta. Logo no início, enfrentaram a mão dura da polícia, que chegou com 350 homens para despejar cem famílias. Saíram por bem, mas não deram o braço a torcer: “Voltamos depois de 15 dias e descemos para a beira do rio”, lembra o agricultor.

Na época, a área já tinha sido entregue para o Banco do Brasil porque os proprietários não pagavam as dívidas. A fazenda foi criada em 1971, em plena ditadura militar, beneficiando-se de incentivos fiscais para lançar um projeto de produção de uva para exportação. Quando a fonte secou, os grandões simplesmente deixaram de pagar o que deviam para o governo –o povo—brasileiro.

Na ocupação, as famílias dividiram inicialmente o que restava do parreiral, cinco filas para cada uma. “Até hoje estamos aqui”, diz Bartô, festejando a posse da terra.

“Só assim a gente tem liberdade para trabalhar. Quando não temos a terra, não temos liberdade, estamos sujeitos, somos humilhados. Se eu chego atrasado um minuto, o patrão me bota na rua. Isso é um cativeiro. Eu tendo a minha terra, vou à hora que eu quero, de madrugada, de manhã. Nunca mais quero trabalhar de empregado para ninguém.”

Ainda hoje vai diariamente para a roça que tem em áreas irrigadas, de um lado e de outro da Estrada da Reforma Agrária. Mas reclama sem cessar da falta de apoio oficial para que os agricultores possam trabalhar a área de sequeiro que ainda resta nos terrenos.

“Hoje a produção de uva é maior do que havia na época do latifúndio”, afirma ele, calculando que os assentados cultivem uns cem hectares de parreirais, cerca de 40% a mais do que no período dos fazendeiros. E aí mora o problema: ainda que muitos plantem outras culturas para subsistência, a maioria investe tudo na monocultura, para aproveitar a riqueza da terra.

A parte de sequeiro de cada família fica praticamente perdida, sem uma adutora que puxe a água do São Francisco e faça a distribuição pelos lotes crestados. “A terra é boa, dava para plantar mandioca, frutas, o que quisesse. Na hora do aperto, ninguém passava fome”, diz o pai de 17 filhos –um morreu e um é adotado.

“O que eu quero é terra molhada”, resume ele.

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Com a família do professor Cícero da Silva, no acampamento Agroisa – Foto Arquivo Pessoal

E foi pensando naquelas palavras que cheguei enfim ao Agroisa, com tempo apenas para me despedir da família de Cícero Afonso da Silva, que generosamente me recebeu nessa curta estada entre os assentados de Lagoa Grande.

Agora é hora de queimar o chão. Petrolina é a próxima etapa do projeto MARATONANDO COM O MST.

Vamo que vamo!

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