Ocupação orgânica

09 A abre va

Pela primeira vez na vida, dona Mercedes fez um exercício físico que não fosse puxar da enxada, varrer o chão, levar água na cabeça, plantar, colher e carregar.

Aos 48 anos, dois filhos e dois netos, a cearense de Itapipoca participou ontem da primeira corrida do acampamento Dom Tomás Balduíno, a cerca de 45 quilômetros do centro de Petrolina.

De chinelos de dedo e vestido, ela foi uma das primeiras a chegar à reunião dos moradores em que conversamos sobre o projeto MARATONANDO COM O MST.

09 A pessoal sestroso

De início, tanto ela quanto a homarada pareciam um tanto desconfiados da ideia, sestrosos mesmo com essa moda de sair correndo por aí. Boa parte deles tinha chegado havia pouco do trabalho na roça, talvez achassem que não vali a pena fazer outra coisa que não deitar na rede e descansar.

Na área do acampamento Dom Tomás, o trabalha começa cedo. Dona Dolorosa, 62, uma das primeiras ocupantes do terreno, acorda pelas quatro da manhã e espera o céu clarear um pouquinho para tomar café no barraco que ela mesma construiu, de pau e lona.

09 A Dolorosa VA mostrando horta

Daí vai cuidar da horta que tem nos fundos do barraco, onde planta pimenta, pimentão, feijão e quiabo. Do outro lado da estrada, mas ainda dentro da área irrigada do Pontal, tem outra plantação de feijão. Tudo orgânico.

Esse é um dos orgulhos do acampamento, que nasceu na madrugada de 28 de setembro do ano passado, quando 220 famílias ocuparam um terreno de 18 hectares beneficiado pelo canal de irrigação construído pela  Codevasf – Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco.

Naquela época, uma das lideranças do movimento disse à imprensa de Petrolina: ““Há meses e anos planejamos essa ocupação, porque a empresa está querendo transformar o Pontal e os produtores em empregados dela. A empresa está expulsando os produtores de lá da área, onde cresceram e produzem. Entre os dias sábado e domingo (27 e 28) decidimos pela ocupação”.

09 A acesso acampamento

“Levantamos a bandeira e começamos a chegar”, conta hoje Erivan Marques Fernandes, o Alemão, que participa da coordenação da ocupação. As famílias chegaram da periferia de Petrolina, de Dormentes, Afrânio, Santa Cruz, Serrote, Araripina. Apareceram também empregados das fazendas próximas que queriam se libertar do jugo do patrão.

Em pouco tempo, chegaram a 860 famílias, mas a maioria aos poucos abandonou o barco, seja por temor aos boatos de despejo, seja porque viram que a batalha seria mais longa do que o que imaginavam.

Hoje são 156 famílias organizadas em diversas comissões e grupos de trabalho, que atuam em rodízio nas diversas tarefas do acampamento, como a vigília diária –de dia, há moradores na entrada principal e vigilância ao longo de toda a noite, para evitar que sejam pegos de surpresa.

Qualquer incidente, o morador que nota o sinal de perigo ou de problema pega um martelão de ferro e bate na cachorra –uma chapa de ferro pendurada em uma árvore, perto da área de reuniões dos moradores do Dom Tomás Balduíno (o nome é homenagem ao bispo que morreu no ano passado, aos 91 anos, e foi um dos grandes lutadores da causa dos pobres, dos índios e dos trabalhadores rurais).

09 A cachorra

Mais das vezes, porém, a cachorra só soa para chamar para encontros em que se debatem os destinos da turma. Em outras conversas, planejam o trabalho: boa parte dos moradores do acampamento optou pela agricultura orgânica para trabalhar a terra.

Para ampliar a divulgação do processo –e também dar exemplo de produção–, Alemão e alguns outros moradores, como Weleson, de 17 anos, estudante de fé e corredor quando pode, montaram o que chamam de mandala orgânica.

Trata-se de uma série de círculos concêntricos de terra preparada, organizados em torno de um poço também circular –há algo a ver com a biodinâmica do universo, mas, cá entre nós, eu só acredito mesmo é na adubação e nos cuidados para proteger a área contra pragas.

09 A mandala organizaca alemao

Isso eles estão fazendo: a terra é preparada com adubo orgânico produzido na região, e cada um dos círculos vai receber culturas diferentes, com fases diversas de floração e produção.

Assim, quando um anel estiver produzindo, outro poderá estar germinando e outro em fase de crescimento mais avançado. Na sequência dos anéis –são três, como na famosa série de fantasia “O Senhor dos Anéis” (também acho que não tem nada a ver, mas, na hora, não notei a coincidência e não perguntei)—há desde temperos e hortaliças até árvores frutíferas.

Em volta dos anéis da mandala orgânica já estão brotando os pés de proteção natural –cravos de defunto, cujo cheio forte, esperam os agricultores, vai espantar ataques de insetos.

O projeto está em desenvolvimento, ainda não deu nada, mas muitas outras lavouras das 156 famílias hoje instaladas no acampamento Dom Tomás Balduíno produzem sem veneno nem adubo químico, que dá até mais lucro para o pessoal.

09 B familia vanda

Foto Rodolfo Lucena

É o que conta dona Vanda, que trabalha em um lote com toda a família –o marido José Wellinton Ferreira Martins, com quem é casada há 21 anos,  e os três filhos (o mais velho é o já citado Weleson).

“Quando a gente precisa de mais dinheiro, leva esse pepino para a feira orgânica”, conta ela, que veio da Paraíba e morava na vila do 25 até o dia da ocupação.

“Daqui a gente só sai para as nossas terras, para trabalhar e deixar de ser escravo”, diz. O marido, com quem Vanda casou aos 15 anos, bate na mesma tecla: “Eles insistem em nos excluir, mas a gente resiste”, diz José, um dos participantes da corrida realizada no final da tarde.

09 A alongamento

A brincadeira iniciou com uma reuniãozinha na rua, já todos se mexendo, tinha ali bem umas 40 pessoas, se não mais.

Começamos um alongamento bem simples, espreguiçar o corpo depois de um dia de trabalho, mexer os quadris, movimentar os joelhos, esquentar a musculatura.

Aí a turma já tinha perdido a sisudez por completo. Havia risos, brincadeiras, provocações. Na hora do rebolado, então, deu até para ouvir uma que outra gargalhada –mas bem comportada.

O planejado inicialmente era fazer uma carreira desde o acampamento dom Tomás até uma outra área de ocupação do outro lado do canal de irrigação da Codevasf.

09 A indo correr

Assuntamos antes, calculamos a temperatura do sol –ardente para mais de metro, mesmo àquela hora, já mais chegada para a tardinha—e decidimos que, para uma primeira experiência de corrida, era melhor ser mais modesto no que se refere à distância, ainda que desafiadores no que se refere à experiência.

Afinal, muitos ali –como dona Maria Mercedes Costa Lima—nunca tinham experimentado caminhar ou correr pelo puro prazer de mexer o corpo, esquecer das pragas do dia e buscar energia saudável no seu próprio movimento.

Assim, saímos em grupo num trotinho bem divertido, tudo mundo sorrindo, atravessando a rua de chão batido, pura poeirama, para chegar até a área de terra livre à beira do canal –obra muito bonita e moderna, que recebeu mais de R$ 200 milhões de investimento do governo federal.

09 A corrida curva

Dali nos fomos na direção do sol, margeando as águas, separadas da área do acampamento só pelas macegas.

A gurizada correu, a homarada fez esforço e as mulheres não quiseram saber de caminhar, queimaram o chão. Até dona Edvânia, que carregava no colo a pequena Eloá, seguiu num trote desafiador. Quando um colega pegou a garota, para deixar a mãe liberada para o exercício, ela disparou que ficou com as bochechas vermelhas ao chegar.

09 A corrida senhiora feliz

Outra carreira emocionante foi a de dona Mercedes. Desde o início, ela tinha ficado um pouco para trás, caminhando e dando curtos trotes ao lado de uma garotinha.

Tal como muitos corredores em maratonas, mesmo sendo a última ela não afrouxava o passo, dedicando à corrida seu esforço e sua alegria.

No primeiro poste, uns cem metros e pouco depois da largada, quebramos todos para a esquerda, cruzamos pela vegetação ressecada, e chegamos à rua de terra, planinha e gostosa para correr que só ela.

09 A corrida volta mais de perto

Apesar do cansaço –que alguns já exibiam no rosto–, o pessoal resolveu acelerar, já vendo o local de chegada como gol, meta, objetivo.

Dona Mercedes também abriu a passada, mexeu os braços como atleta a se descobrir, perseguindo a garota que antes fora sua companhia e agora talvez fosse rival. Passou da menina e chegou erguendo os braços, campeã da corrida e da vida.

09 A mercedes 1

Vamo que vamo!!!

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