Adílson, o professor

10 A abre professorFutebol de praia você já conhece, vôlei de praia também, assim como a mistura dos dois, o futvôlei, que faz a alegria do ex-goleador e hoje senador Romário. Mas basquete na areia aposto que você não tinha ouvido falar até agora.

Imagine só fazer aquela bolona enorme quicar na areia, que teima em segurara a redonda, sem querer voltar para as mãos do jogador. Impossível, alguém pode dizer. Mas o povo também não diz que a necessidade é a mãe da invenção? Pois o professor Adílson inventou.

Mais do que inventar, ele está revolucionando as experiências da meninada que participa da programação de esporte em uma escola no assentamento Água Viva, na zona rural de Petrolina. Trabalhando com crianças da primeira etapa do ensino fundamental, aos poucos mostra a elas que o mundo esportivo vai além do futebol.

10 A muro escola

Começou com noções de vôlei e handebol, mais fáceis de serem adaptados à quadra de areia disponível na escola municipal Daniel Berg. Descobriu cestas de basquete guardadas no acervo da escola e resolveu experimentar. Foi além: com crianças de oito a doze anos, montou uma equipe de atletismo. Segue, assim, um caminho que trilhou desde menino, experimentando e aprendendo, enfrentando desafios.

Hoje com 30 anos, Adílson Costa dos Santos nasceu de família pobre em João Câmara, cidade a cerca de 70 quilômetros de Natal, no Rio Grande do Norte. Desde pequeno, teve de trabalhar para ajudar a renda da família e conseguir tirar um pouquinho para bancar seus desejos.

Sua vida começou a mudar aos doze anos, quando trabalhava como babá de dois meninos menores, de seis e oito anos. Uma de suas missões era levar os filhos do patrão para a academia, onde brincavam de aprender caratê.

Adílson aos poucos foi se interessando pela arte marcial, observava os movimentos, acompanhava os golpes como se estivesse praticando sem se mover. O professor Jaílson Bernardo, entusiasta da luta, notou a atenção do adolescente e o convidou para experimentar treinar.

“Ele foi como um pai para mim, mais do que um pai”, diz hoje Adílson, lembrando como o mestre o encaminhou para o mundo do esporte.

Sempre que podia, ia treinar. Foi apresentado a outros esportes, como o handebol, em que também começou a se destacar. E não abandonava os estudos.

10 A escola caminha

Numa feliz coincidência, terminou o segundo grau na mesma época em que o professor recebeu convite para ir trabalhar em Petrolina. “Você não quer ir junto”, lhe perguntou o guru, e Adílson não deixou passar a oportunidade de crescer e começar a fazer a faculdade de educação física em Petrolina, onde está há quatro anos.

Ainda não completou o curso, que deve finalizar agora, mas já vem trabalhando no programa Mais Educação, que leva disciplinas extras aos estudantes do ensino regular –artes, música, teatro, esporte e até reforço em matérias convencionais, como português história e geografia.

O negócio dele é esporte. E atletismo, em que teve condições até de descobrir talentos promissores.

No ano passado, trabalhando no bairro conhecido como N4, no projeto Nilo Coelho –também periferia de Petrolina–, percebeu que um dos seus alunos estava se dando muito bem nas corridas na hora da aula de ginástica.

O garoto, de nome Rafael, mas mais conhecido como Informática por causa de suas aptidões com conserto de computadores, chegou mesmo a pedir para treinar fora de aula, rodando ao lado de Adilson, que costuma correr dez quilômetros três vezes por semana para “manter a forma”.

O menino ganhou competições de sua faixa etária, teve bom desempenho em corridas de rua, mesmo contra adversários mais velhos. Adílson o encaminhou para a equipe do professor Marciano Barros –da Associação Petrolinense de Atletismo–, e Informática contionua a desenvolver suas aptidões como corredor.

Neste ano, a vida profissional de Adílson mudou: saiu da escola em que atuava e veio para o trabalho na vila 1 do Água Viva, assentamento que existe desde 2002, conforme conta um de seus mais antigos moradores, o Irmão Paulo.

10 A irmao paulo

“Era para ser de lotes irrigados, mas até agora a água não chegou para nós”, reclama ele. No dia em que nos recebeu, no início desta semana, ele esperava um técnico que viria examinar as condições para enfim puxar a água do canal que tangencia parte do perímetro do assentamento.

Como em outras áreas em que atua o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, o processo todo começou com uma ocupação. Em 17 de abril de 2000, cerca de 400 famílias se instalaram em parte do terreno da fazenda Santa Teresa, então praticamente falida, segundo diz Paulo do Nascimento Silva, nascido em Orocó há 54 anos –32 deles vivendo em Petrolina.

Quando houve a ocupação, recorda Irmão Paulo –o apelido surgiu por causa de sua atividade religiosa–, apenas “300 e poucos” hectares estavam produzindo, dos 4.800 hectares totais da fazenda.

A gleba toda foi encaminhada para desapropriação para reforma agrária, mas houve querelas na Justiça e acabou que menos da metade foi destinada aos agricultores sem terra. Com isso, foram assentadas apenas 190 famílias nos 2.340 hectares desapropriados.

Cada um deveria receber parte das terras irrigadas, para poderem produzir e tirar do chão o próprio sustento. O projeto, porém, engasgou em burocracias daqui e de lá; até agora, não andou.

Menos mal que, logo no início, as famílias receberam uma verba mínima para instalação (R$ 800) e ainda uma ajuda para a construção das casas, cada uma com um bom terreno.

É no pátio doméstico que, desde então, os assentados trabalham e produzem minimamente. Irmão Paulo, por exemplo, como vários outros moradores do Água Viva 1, que visitamos, tem especial predileção pela agricultura orgânica.

Trabalha com agricultura natural e não põe veneno nas acerolas que produz no quintal. Apesar das dificuldades enfrentadas, bendiz o dia em que resolveu participar da ocupação, lá nos idos do ano 2000.

Na época, já morava em Petrolina, onde tivera uma série de empregos, especialmente na construção civil. “Nasci na agricultura, trabalhando na terra”, conta ele, que resolveu ir para a cidade grande depois de cansar de trabalhar para fazendeiro.

Em 2000, porém, estava desempegado, enfrentando dificuldades para sustentar a família –mulher, filhos e ainda alguns parentes.

Mesmo assim, disse que ficou “meio assustado” quando ouviu as primeiras conversas do MST.

“Não vou entrar nessa. A polícia mata muito”, disse ter pensado naqueles dias. Para piorar as coisas e deixar o povo ainda mais cabreiro, não fazia muito tempo que tinha acontecido o massacre em Carajás, quando 19 trabalhadores rurais foram assassinados.

A vontade de ter a própria terra para trabalhar superou o medo, a desconfiança e a insegurança. “Fiz bem em vir. Daqui não saio mais, só quando morrer mesmo”, resume Irmão Paulo.

Com sua pequena produção, consegue recursos para manter a casa, auxiliado pelos filhos –um vende bolos, outro é pedreiro. A relativa estabilidade fez com que Paulo, depois dos 50 anos, resolvesse investir em outro sonho: melhorar suas habilidades de leitura.

“A luta do dia a dia é que me tirou do estudo”, diz ele, que hoje é um dos alunos do programa de Educação de Jovens e Adultos montado na escola que fica no próprio assentamento.

10 A crianca movimento

Estuda à noite, por sinal, nos mesmos prédios em que, pela manhã, conheci o professor Adílson. Ele foi um dos que me abriu as portas da Daniel Berg para conversar com o estudantado e propor uma corrida coletiva, reunindo crianças maiores e menores, alunos e até um morador do assentamento que costuma apoiar os trabalhos na escola.

Tive oportunidade de ver a horta coletiva onde as crianças aprendem os segredos da agricultura orgânica, acompanhei por algum tempo a preparação da bandinha do grupo –outra atividade do programa Mais Educação—e passei o convite para a corrida sala por sala.

10 a corrida curva

Os professores abraçaram a causa da corrida e, antes da hora do lanche, cada um trouxe sua turma para o pátio. Dali saímos de forma organizada para o campo de futebol e área de exercícios, formando uma enorme e alegre fila.

Com a participação do professor Adílson, que assumiu o comando das operações naquela altura, convidados cada criança e, mais tarde, chamar sua família para correr, fazer exercício ou simplesmente caminhar ao final do dia de trabalho.

10 A corrida caatiga professor frente

Também fizemos alguns alongamentos e saímos todos para uma volta em torno do gramado.

Foi muito divertido. Professores que acompanharam –algumas “tias” também se entusiasmaram com a corrida—destacaram as possibilidades educativas que a atividade oferece. E lembraram que nunca antes tinham levantado a possibilidade de uma sessão de exercício congraçar todo o alunado, menores e maiores, meninos e meninas, gordos e magros, fortes e fracos, rápidos e mais lentos.

10 A professor equipe

Assim, foi com sorriso no rosto que levaram de volta a turma para o páteo da escola, onde iriam receber o merecido lanche. Enquanto isso, o professor Adílson mostrou outra de suas conquistas: pela primeira vez em seus cerca de dez anos de história, a escola Daniel Berg tem uma equipe de atletismo.

“Fui selecionando aos pouco, fazendo os convites para o pessoal de oito a 12 anos”, diz. Também tomou cuidado para não haver discriminação na oferta de oportunidades.

A equipe enfim surgiu há cerca de um mês, com quatro meninas e quatro meninos. Eles mesmos participaram do processo de construção da turma –ajudam, por exemplo, a manter limpo e em boas condições o pequeno tanque de areia que foi improvisado para os saltos.


10 A loirinho salta

Nas corridas, começaram com distâncias bem curtas, como 75 metros. Fazem trotes em volta do campo, realizam exercícios de coordenação motora e aprimoram o gesto esportivo. Todos são muito dedicados, mas alguns mostram seriedade impressionante para a idade, atuando muito focados, mesmo em uma simples demonstração de salto.

É com eles que o professor Adílson vai aos Jogos Escolares do município, no mês que vem. Pela primeira vez na história, o assentamento Água Viva estará representado nas competições de atletismo.

O que vier é lucro. Vamo que vamo!

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