Rúcula e berinjela

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Trabalhado em horta orgânica no assentamento São Francisco – Fotos Eleonora de Lucena

Foi um transbordamento!

A terra estava prontinha, arada, revirada, amolecida, molhada, protegida. Não carecia de mais nada, faltava só despejar o material especial, que chegara em grandes sacos, para completar o preparo e iniciar o plantio da primeira horta orgânica do assentamento São Francisco, no município Pernambuco de Petrolina.

Quanto mais, melhor, pensaram os trabalhadores das nove famílias de assentados que tinham ficado firmes, ano após ano, esperando que as promessas de governantes e políticos enfim fossem cumpridas.

No início, lá em 2010, tinham sido 19 famílias decididas a trabalhar a terra sem veneno, a produzir alimento rico e limpo de coisaradas químicas. O pessoal do assentamento São Francisco tinha sido sorteado pelo Pró-Rural para sediar o projeto ali na região.

“Que felicidade!”, lembra hoje seu Manuel, que na época era um dos dirigentes da comunidade. Foram feitas assembleias, colhidas assinaturas, houve fala do então governador Eduardo Campos (1965-2014) e do secretário da Agricultura da época.

O entusiasmo inicial, no entanto, foi se desmoronando ao longo do tempo. Não vinham os recursos, não se iniciavam obras para garantir irrigação da área, não eram abertos cursos de formação, nada.

Cada um foi cuidando de sua vida, até que, no ano passado, parece que a coisa deu de engrenar. Aí, foram poucos os que acreditaram. Mas o suficiente para dar início à montagem da horta.

Limparam o terreno, fizeram a buraqueira, ergueram os postes, montaram a cerca para proteger a área de cerca de meio hectare. O tempo passou: o plantio mesmo só começou em maio último.

Com entusiasmo: “A gente não sabia direito como fazer. Teve produto que era para usar em um ano, a gente gastou em um mês”, conta dona Maria do Carmo Alves, 40, que todos os dias está na horta cuidando de suas plantinhas.

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Maria do Carmo, que hoje descobre os benefícios da agricultura orgânica

“Precisamos um curso, tem de melhorar a formação”, reclama ela. Mesmo assim, com tais carências, a coisa está funcionando.

A chegada da agricultura orgânica à região do Vale do São Francisco é mais do que o início de uma nova atividade econômica, mais um jeito de os trabalhadores da região ganharem dinheiro.

“É bom para a saúde da gente”, diz o senhor Manuel, contando que o pessoal da região não tem o hábito de consumir verduras.

“Lá em casa, só eu que gosto”, comenta ele, contando que a família está fazendo experiências. “Minha mulher está aprendendo a comer. Parece que está gostando”, ri-se o dirigente do assentamento São Francisco.

“Espinafre eu nem conhecia”, completa dona Maria do Carmo, que se entusiasma também com  a plantação de rúcula.

“Quando começou a nascer, tem aquele cheiro forte, muita gente desconfiou se dava para comer”, lembra.

Dá, sim. Além de consumida como salada, a rúcula pode dar gostinho especial no arroz e até no feijão, segundo disseram a Maria do Carmo. Ela não testou ainda: “Vou botar com arroz, mas só um pouquinho, para não perder a panelada se não gostar”, diz ela.

A agricultora, como boa parte de seus companheiros, também não conhecia a saborosa berinjela. Hoje é uma consumidora entusiasta.

“Corto em rodelas, tempero bem, passo na farinha e frito bem fritinha”, revela. “É um delícia!”.

De fato, a berinjela não só é gostosa como também é muito versátil. A versão frita, seja à dorê ou empanada, é talvez a mais conhecida –mas também a forma menos saudável e mais calórica de ser consumida.

Dá para descascar, cortar em pedaços e refogar com cebola. Ou cortar pela metade, no sentido longitudinal, tirar o miolo, refogar o miolo com guisado e depois voltara  rechear as “barquinhas” de berinjela… Ah, e o vegetal é também a base da saborosa babaganuche, uma das estrelas da culinária árabe (clique AQUI para conhecer uma receita desse patê sensacional; use a receita como base para suas próprias mudanças e invenções).

Mas voltemos às histórias de dona Maria do Carmo. Ela conta que vende suas hortaliças sem veneno em feiras da região. Está tendo bom resultado, mas poderá ser melhor quando conseguir a certificação oficial de produção orgânica –estão buscando orientação para ver como encaminhar essa história. Que já está mais demorada do que gostariam.

Menos demorada, porém, que a espera dos trabalhadores do vzinho assentamento Josias Samuel. Lá o povo recebeu a posse da terra, mas até agora não chegou o financiamento para a construção de casas. Por ironia, os moradores de lá tem a terra, mas não tem telhado: apesar de a documentação ter saído há dois anos, as 25 famílias ainda vivem como se fossem acampadas.

Trata-se de uma embrulhada envolvendo diferentes agências de financiamento, conta Cícero Dantas Correia, 42, um dos pioneiros do Josias Samuel. Sua família foi uma das nove que, há 11 anos, ocupou o local, que era uma fazenda improdutiva, quase abandonada. Em poucos dias, o número de famílias tinha chegado a mais de cem.

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Cícero sob a mangueira que protegeu sua família – Foto Rodolfo Lucena

Nem todas, porém, resolveram continuar lutando depois dos primeiros embates com forças repressivas. Houve um despejo, sem violência, mas que deixou o povo desanimado. Expulsos da terra, tiveram de ficar à beira da estrada, sem ter com que produzir.

“Eu não fui para a beira da estrada”, diz Cícero. “Fiquei morando aqui mesmo, embaixo dessa mangueira”, lembra ele, que nos deu entrevista sentado no chão, à sombra da árvore que protegeu sua família na década passada.

“Montamos o barraco de lona e ficamos trabalhando essa terra aí”, diz ele, apontando para uma gleba de cerca de meio hectare em que produz uvas –a mesma atividade que montou nos primeiros tempos da invasão.

Ali há água, que conseguiu puxando de uma valeta de irrigação que passa à distância. Ainda que produtivo o suficiente para garantir a sobrevivência da família, o parreiral não é permanente –Cícero espera que, em breve, o assentamento Josias Samuel receba os benefícios prometidos, que são direito dos trabalhadores rurais.

Enquanto isso não vem, o agricultor quarentão, de fala tranquila e ar de professor de filosofia, trata de cuidar do próprio crescimento: é um dos alunos da escola para jovens e adultos que funciona no vizinho assentamento São José do Vale.

“Quero terminar o terceiro ano e fazer faculdade. Servir de exemplo para meus filhos.”

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