Lições de dona Bebela

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Dona Bebela na cozinha da casa na roça da família – Foto Eleonora de Lucena

Dona Bebela é uma mulher ocupada.

Magra, musculosa, desempenada, se movimenta com gestos rápidos, dedicada a preparar um suco de maracujá doce como o quê! Mal fala enquanto trabalha, organizando tudo na ampla cozinha da casa na agrovila do assentamento de São José do Vale, na periferia de Petrolina, sertão pernambucano.

Arruma pratos, panelas, talheres, vai tudo para a casinha da beira do rio, no meio da roça da família Mendes, onde será feito o almoço e vamos conversar um pouco mais. Agora mesmo, porém, dona Bebela já deixa que um sorriso lhe ilumine o rosto ao falar da plantação.

Há melancia da boa e muita uva. Uma área foi reservada para a experiência com agricultura orgânica, orgulho da casa e do filho Florisvaldo, que afirma ser ali o primeiro plantio de uvas finas de mesa sem veneno nem adubo químico.

Ele se orgulha de dizer que nem para fazer a quebra de dormência da uva –acelerar o crescimento—usou o onipresente Dormex. Empregaram um preparado feito com alho e óleo (para 20 litros de água, um quilo de alho batido no liquidificador com 200 ml de óleo. Os resultados são ótimos, na avaliação do agricultor, que também é um dos líderes do MST na região.

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Florisvaldo mostra plantação de uvas orgânicas – Foto Rodolfo Lucena

Mas nem sempre a roça ali foi tão bonita, nem sempre a vida transcorreu em tanta paz para a família, como conta dona Florisbela de Araújo Mendes, 62, que nasceu no Piauí, criou família na Bahia e hoje se vê rodeada de filhos, netos e bisnetos em Pernambuco.

“Eu fui criada trabalhando. De pequena, pai cavava as covas para plantar o milho e o feijão, e eu ia entupir a cova. Botava o milho e o feijão e entupia com o pé. Quando tinha mato, a gente pegava a enxada para limpar. Quando aquela planta estava para nascer, os passarinhos vinham, a gente vigiava os passarinhos, cedinho e detardezinha.”

Casou-se antes de completar 15 anos, e seguiu o marido para a Bahia, onde fez família. “Tempos difíceis”, lembra dona Bebela. “Não chovia, e eu não queria ver meus filhos passar necessidade. É muito ruim você ver o filho pedir alguma coisa e você não ter para dar.”

Em busca de condição melhor, no início dos anos 1990 a família se mudou para Petrolina, foram trabalhar na área do projeto de irrigação de Bebedouro. “Eu não trouxe nada, só meus filhos e a roupa. Já tinha meus seis filhos.”

Os maiores começaram a trabalhar e a estudar, a pequena foi para a creche, dona Bebela trabalhava na roça, o marido –com que está casada há 48 anos—também labutava no campo e ainda trabalhava com segurança em uma escola.

“Não faltava nada para a gente sobreviver, para comprar alimentação, calçado para meus filhos, comprei móveis, comprei tudo…”. Mas não tinha a terra para trabalhar, eram todos empregados.

“Aí surgiu essa benção de Deus que é a reforma agrária, que eu não sabia nem o que era”, conta dona Bebela. “Um dia meu marido chegou e disse que tínhamos que fazer umas compras grandes, que ia ter ocupação, a gente precisava garantir alimentação para os meninos que iam com a turma tomar conta da terra.”

Era a ocupação da fazenda Safra, a pioneira, a mãe de todos –um pouco como dona Bebela, também mãezona. Os filhos mais taludos ficaram noite e dia na luta, enquanto o resto da família seguia a vida. O mais velho, José Evaldo, aos poucos se engajou no movimento.

“O pessoal já começou a se agradar dele para ser um militante. Ele viajou para Santa Catarina para fazer um curso de militante. Passou 52 dias. Eu ficava desesperada demais, meu filho para lá e eu sem saber o que ele estava fazendo. Quando meu filho voltou parecia que tinha chegado Deus do céu.”

Com o tempo, a família toda foi para a ocupação, largando de uma vez tudo o que tinham construído em Bebedouro, buscando esperança e futuro.  Sem vaga nas primeiras áreas, a família ouviu a dica do filho mais velho –que anos depois morreu em um acidente de moto—e se juntou ao grupo que ocupou a fazenda Sanrisil, já então falida.

“Eu vim na maior felicidade do mundo”, lembra ela. Felicidade cortada por momentos tristes: foi expulsa da fazenda em que trabalhava.

“ Um dia, saí para uma roça e o cidadão não queria que eu trabalhasse na uva dele porque eu era sem terra. Ele disse; `Olha dona Bebela, aqui sem terra não trabalha não, porque sem terra é bom para roubar terra`. Eu peguei a minha tesoura e entreguei a ele, disse: `Olha, seu Francisquinho, o dia de amanhã só a Deus pertence`. Voltei de cabeça erguida, saí de baixo da uva e vim embora.”

De cabeça erguida, enfrentou despejos. Num momento, dona Bebela e os agricultores aceitaram a expulsão. Ficaram fora da fazenda vazia, voltaram quatro dias depois, montaram os barracos nas margens do São Francisco.

“Quando a gente estava lá, aparece a polícia de novo, para fazer despejo. Mas veio primeiro só uma viatura.  Quando a viatura da policia chegou, o pessoal começou:  “Nós não vamos sair, não adianta vir que agora nós não saímos”.

“Nós fizemos aquela organização, com as mulheres na frente. Tinha umas mulheres com foice, outras com machado, os homens com as foices na mão.”

Dona Bebela estava à frente, foi quem falou com a polícia: “Se vocês quiserem nos tirar daqui, pode vir com um caminhão. Para nos tirar daqui, tem de trazer vários caixões, e caixão que caiba policial também. Porque agora nós vamos topar a briga. Nós podemos morrer, mas o risco que corre o pau corre o machado”.

Nunca mais a polícia pisou na então fazenda Sanrisil. “Nós falamos tudo como uma boca só. O risco que corre o pau corre o machado e nós não há o que temer não. Aquele que manda matar também pode morrer…”, diz dona Bebela.

Um ano e dois meses mais tarde, chegou o documento de posse. E hoje a família cresce em volta de dona Bebela: o marido, cinco filhos, 18 netos, quatro bisnetos.

Está na hora de ela também começar a se cuidar. Há pouco tempo, descobriu os benefícios da caminhada. E já virou mensageira do exercício, recomendando a todos que caminhem um tempinho a cada dia.

“Comecei quando estava no Piauí, uns dois mês atrás. Fui visitar minha cunhada, que é doente do coração. O médico passou para ela fazer caminhadas. Ele me convidou para ir junto. A gente andava três quilômetros indo, três quilômetros voltando. Chegava em casa, a gente dormia bem, descansada.”

A cunhada lhe disse que, nos primeiros dias, iria sofrer, acordar dolorida. Que nada! Dona Bebela parece feita para o exercício. Lá mesmo no Piauí, foram cinco dias com caminhadas todos os dias.

“Chegando aqui de volta, meu irmão me deu um tênis para eu fazer caminhada”, conta ela, que passou a convidar as vizinhas para a jornada.

“Caminhar é bom. Você sai de casa, esquece todas as preocupações.  Ali parece que é só beleza, é bom demais. Vai com as vizinhas conversando e andando ligeiro, não vê nem o tempo passar.” E sorri.

Com essa lição de dona Bebela, encerramos aqui a série de textos sobre a primeira etapa do projeto MARATONANDO COM O MST. Fique com a gente porque vem mais por aí.

Vamo que vamo!

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