Produção coletiva

30 A corrida abre mesmo

Moradores da Cooptar participam do projeto Maratonando com o MST – fotos Eleonora de Lucena

Quem a visse ali, caminhando e gritando, agitando os braços, batendo de porta em porta e conclamando os vizinhos teria uma pálida ideia da energia daquela mulher, de sua dedicação à luta pela reforma agrária.

Em uma história de mais de 30 anos de participação, ela atuou em ocupações e enfrentou a polícia, ajudou a organizar assentamentos, trabalhou na formação de jovens e adultos, tratou de colaborar no crescimento pessoal e político da companheirada, ocupou cargos de direção regional e nacional no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

30 A irene
Naquele fim de tarde, porém, Irene Manfiolil, 52, tinha uma tarefa mais amena. Com outras mulheres, homens e crianças moradores da agrovila da cooperativa Cooptar, no coração da fazenda Annoni, chamava a vizinhança para participar de uma corrida comunitária, um encontro de amigos para divulgar a atividade física como meio de conquistar mais saúde e melhor qualidade de vida.

Melhores condições de viver, morar e trabalhar todos eles já vinham construindo havia mais de 20 anos. Numa experiência pioneira, repleta de características muito especiais, 13 famílias de sem terra participam de uma cooperativa diferente do padrão comum desse tipo de associação.

Enquanto grande parte das cooperativas que hoje atuam no país se especializam na comercialização do fruto do trabalho dos associados, a Cooptar é diferente. Aqui, num terreno acoxilhado característico do Planalto Médio gaúcho, os agricultores produzem em terra comum, dividem o trabalho, socializam eventuais sofrimentos e perdas, compartilham os lucros e sonham juntos por um futuro ainda melhor.

“Nós aprendemos que o centro é a cooperação, não a cooperativa”, diz Isaías Vedovato, 51, um dos dirigentes da Cooptar e a pessoa exata que, na madrugada do dia 29 de outubro de 1985, cortou o arame da cerca que protegia o latifúndio improdutivo da fazenda Annoni.

“Eram cinco fios”, lembra ele. “Quando se corta o arame, ele chicoteia, faz um barulho, um zuiim”.

Cortado o arame, logo outro companheiro que vinha de enxada tratou de dar uma desbarrancada no terreno, aplainar mais ou menos a área para facilitar a entrada dos caminhões.

Foi aquele cortejo, centenas de famílias chegando com colchões, comida, lona, crianças. Sob a luz dos faróis, já começaram a montar os barracos.

30 A isais va

Lá do alto, sentado ao lado da cerca cortada, Isaías observava, emocionado, o início de um novo Brasil, a primeira ocupação organizada e comandada pelo então jovem e irrequieto MST, que tinha sido oficialmente criado no ano anterior, em um encontro em Cascavel, no Paraná.

“Chorei”, nos diz ele hoje, de novo com os olhos cheios de lágrimas, sentado em um dos escritórios do prédio administrativo da Cooptar, ao lado de um frigorífico que, como muita coisa no movimento, está em processo de modernização.

Até o final do ano, a reforma nas instalações estará completa, possibilitando ampliar muito a produção. Vão multiplicar por dez a capacidade de abate de suínos, passando de 40 para 400 cabeças por dia; segundo se espera, os 20 bovinos abatidos hoje diariamente chegarão a cem por dia a partir do final do mês que vem.

Foi dali de perto, de uma esquina em um dos cantos da praça central da agrovila, que partiu nossa corrida.

Na nossa pequena minimaratona, éramos em mais de 30 pessoas, desde a pequena Luiza até veteranos de mais de 60 anos. Muita gente, já cansada da labuta do dia, se aprochegou para a jornada. Houve até quem abandonasse por alguns minutos o sagrado chimarrão de fim de tarde para suar com o grupo na carreira em torno da praça.

30 A corrida

Todos ali eram praticantes da vida cooperada, em que um ajuda o outro e o outro ajuda o um. Até para saber qual a melhor colaboração que cada um poderia dar ao grupo, durante um período a cooptar fez uma rotação de funções –cada associado fazia um tipo de trabalho ao longo de um certo período, passando depois para outra atividade.

Assim, rodavam as atividades na roça, na horta, no frigorífico, na administração… A experiência não deu muito certo, caiu a produção e a produtividade, então resolveram tratar de aproveitar o que cada sabe fazer melhor para que todo o grupo ganhe.

Darci Maschio, por exemplo, é um bom administrador. Na hora da corrida, ele foi pego de surpresa pela convocação de Irene, veio como estava, sem camisa mesmo. Ao longo do dia, porém, veste-se um pouco mais formalmente, ainda que com simplicidade.

Ele não só comanda as operações, mas é o rosto da Coperlat, outra experiência de atuação cooperada que os assentados na fazenda Annoni vêm realizando com bastante sucesso.

30 A maschio

Desde o início da ocupação e depois da conquista do direito de uso da terra, a orientação do movimento e a busca dos trabalhadores era no sentido de alguma atuação coletiva. Afinal, se todos carreassem a produção para um ponto e juntos fizessem a comercialização do produto teriam mais chance de conseguir bom preço, mais força para negociar com os grandes compradores.

A primeira experiência foi a Coanol, cooperativa que durou cerca de 15 anos e atuou na comercialização de grãos. Como sua própria vida atesta, durante um bom tempo a associação foi lucrativa e levou bons resultados para a comunidade.

Com o crescimento do avanço do agronegócio na região e a existência de grandes latifúndios produtores de grãos, a Coanol foi perdendo poder, deixou de conseguir bons preços e ainda enfrentou outros problemas administrativos. Acabou por volta de 2005/2006.

Apesar da tristeza pelo fim da entidade, que deixou dívidas e pendengas jurídicas, os agricultoras assentados na Annoni guardaram boas lembranças, continuaram confiando no trabalho cooperativo.

Afinal, ainda que limitado nos espaço –apenas 145 hectares dos 9.200 hectares que foram repartidos–, a experiência do povo da Cooptar luzia como um farol. Com dificuldades, estava produzindo bem em terra comum, onde a posse não era de ninguém, era do coletivo.

No caso da comercialização, porém, a turma resolveu seguir o modelo convencional, em que cada associado faz a sua parte e entrega para a cooperativa a produção para comercialização.

Trabalhar com grãos não deu certo, mas talvez outro produto fosse mais indicado. Assim, nem bem “morria” a Coanol, começava a ser gerado o embrião de outra associação.

Em 27 de outubro de 2007, com a participação de 23 produtores associados, foi criada a Coperlat, cooperativa para comercialização de leite  –que hoje já trabalha na construção de outros projetos.

“Começamos com seis mil reais em estoque em produtos veterinários e muitas dívidas”, lembra Maschio, natural de Três Passos, que foi um dos moradores do famoso Barraco dos Piá, de abrigo de um grupo de jovens ativistas durante o período do acampamento na Annoni, nos idos de 1989 e início dos anos 1990.

Oito anos depois, o antigo garoto aventureiro hoje transformado em administrador faz a contabilidade: a cooperativa tem três caminhões para puxar leite, um para puxar silagem, uma máquina de silagem, um caminhão que puxa esterco, uma carreta e seu cavalo mecânico. Tudo somado, dá um patrimônio que ele calcula em R$ 1,3 milhão.

O valor pode até parecer pequeno se comparado com a movimentação de fábricas poderosas, mas é resultado de uma vida de lutas e do trabalho de abrir espaço e conquistar mercados.

Hoje a Coperlat recolhe leite em 79 pontos, e cada família entrega cerca de cem litros de leite por dia. Na sede, o produto é inspecionado –a cooperativa tem credenciamento do governo federal para fazer esse trabalho.

Passando no controle de qualidade, a produção é vendida para um laticínio, que em troca vende à cooperativa bebida láctea e queijo que, por sua vez, são comercializados para a produção de merenda escolar.

Tal como o frigorífico da Cooptar, a Coperlat quer mais. No ano que vem, se tudo correr de acordo com o planejado, já terá instalações para funcionar como laticínio, controlando todo o processo da produção e se tornando capaz de vender produtos com mais valor agregado.

Ainda que os números sejam encantadores, a contabilidade não consegue capturar a alegria nos rostos daqueles agricultores, homens e mulheres pioneiros da luta pela reforma agrária que participaram da nossa corrida do final da tarde.

30 A largada 1 guris

Além de suarem as tristezas do dia, tinham no seu entorno o exemplo vivo de seu trabalho, dos resultados de sua atuação coletiva. Passamos, por exemplo, pela horta orgânica que abastece a comunidade. Depois de uma curva, podemos ver ao longe a terra plantada –cem hectares produzindo milho e soja naturais no que talvez seja a maior plantação do gênero em todo o Rio Grande do Sul, segundo calcula Isaías.

Vemos também o pequeno cemitério da comunidade. Lá está enterrada uma das mártires do movimento, Roseli Nunes da Silva, mãe emblemática da luta pela reforma agrária.

Foi dela a primeira criança nascida no acampamento da Annoni, dias depois de Isaías ter cortado o arame e das centenas de famílias começarem a ocupação. O bebê foi saudado como germe de esperança, fruto da luta; até seu nome foi resultado de discussão coletiva.

Foi com Marcos Tiaraju –homenagem ao grande cacique Sepé Tiaraju, que deu contra os exércitos de Portugal e Espanha o brado que ainda hoje ecoa pelos pampas: “Essa terra tem dono!”—no colo que Roseli participou das grandes manifestações dos acampados, em 1989.

Levou o menino na marcha até Porto Alegre e com ele ouviu todos os sinos de todas as igrejas da capital soarem para saudar a chegada á capital dos lutadores da reforma agrária.

Foi na luta que ela morreu, anos depois, atropelada por um sujeito que lançou seu caminhão contra trabalhadores que montavam piquete em uma encruzilhada, apoiando a luta de pequenos agricultores por melhores condições de vida.

Roseli se foi, mas deixou frutos. Marcos Tiaraju está vivo, é médico formado em Cuba e continua firma na luta pelo povo.

Ao longo do caminho, vemos outros frutos da luta, as casas das famílias cooperadas.

Cada uma tem seu estilo: aqui, só gramado, acolá grandes rosas vermelhas, na outra, uma floração só engolfando a fachada…

Depois de 780 metros suados, completamos a volta na praça e mais uns tantos metros, terminando a corrida em frente a um prédio apelidado de Ciranda.

Foi uma das primeiras coisas que a comunidade tratou de fazer: uma creche, uma área para cuidar da criança, dos bebês de colo. Afinal, quando a cooperativa começou, as famílias estavam também em formação, e havia muita meninada.

Era obrigação do coletivo garantir o trato e a segurança dos filhos para que as mães pudessem trabalhar para o grupo, para que ninguém ficasse escravo do trabalho doméstico.

Mesmo hoje, ainda que muitas mulheres façam algum cuidado com a casa, esse trabalho é reconhecido como produtivo para a cooperativa. Assim, a jornada diária dos homens é de oito horas e meia, e a das mulheres é de sete horas, mas todos recebem a mesma paga.

Nem todo mundo entende a justiça disso, o trabalho coletivo não é para todo. Nos primórdios da cooperativa, lembra Isaías, teve gente que desistiu de participar do grupo ao saber que as mulheres iriam receber o mesmo que os homens…

Aliás, para facilitar o trabalho de todas e todos e reduzir as atividades em casa, a cooperativa tem um restaurante coletivo que garante o almoço para todos da comunidade a preços subsidiados –cada refeição custa R$ 5, o associado paga a metade e a cooperativa cobre a outra parte.

Me disseram que a comida é muito boa. Como eu corri por lá no final da tarde, não posso confirmar. Mas ainda hoje, algumas horas depois de produzir esse texto, volto à Cooptar para experimentar a bóia da turma…

Sei que a generosidade de todos é enorme, assim como sua disposição de luta e vontade de encampar o novo. Mal terminamos a corrida, fizemos uma rápida reunião com todo o grupo, cada um contando um pouco de sua experiência.

Cansei, disse um. Estamos fora de forma, reclamou outro. Foi bom… Uma das primeiras a chegar conta que só conseguiu terminar graças aos exercícios que faz em academia de ginástica. E todos concordaram que a experiência precisava continuar.

Como bons cooperados e cooperadores, trataram de escolher ali mesmo uma comissão encarregada para, a cada segunda-feira, convocar a vizinhança para a caminhada comunitária.

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A primeira comissão coordenadora de corrida comunitária da Cooptar é formada por três mulheres  –mais uma indicação do envolvimento e do comprometimento da mulherada com o desenvolvimento da comunidade. São elas Maria Salete Zorzi, Lúcia Vedovato e Ana Maria de Bortoli.

A elas, que aparecem aqui na foto com crianças que participaram da nossa brincadeira –a pequena Luíza em primeiro plano–, vai a homenagem e o agradecimento do projeto Maratonando com o MST.

Vamo que vamo!!!

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