Abraço da juventude

01 A ABRE

Marcha da juventude sem terra – Fotos Eleonora de Lucena

Com passadas largas alguns, outros de passos leves e curtinhos, movimentando braços com elegância ou mostrando já um certo cansaço, mas sempre com um sorriso no rosto, mais de 150 moças e rapazes construíram, com uma corrida, um abraço simbólico ao Acampamento Estadual da Juventude Sem Terra, que terminou neste domingo em Sarandi, no interior do Rio Grande do Sul.

O acampamento reuniu cerca de 600 jovens vindos de mais de 20 municípios gaúchos. Discutiram a situação em suas áreas, analisaram a conjuntura, cantaram, dançaram, festejaram, estabeleceram novas metas para a luta comum. E correram.

Em meio à intensa programação do Encontro, os jovens gaúchos receberam a turma do Maratonando com o MST. A corrida, disse eu para a plenária, é um das formas de a gente se manter saudável, de congregar a comunidade, de chamar a turma para uma ação por mais qualidade de vida. E por mais diversão.

01 A CORRE abre

Pelotão enfrenta subida no abraço corrido

Indo da palavra ao ato, mal terminou a conversalhada, na tarde de sábado (31 de outubro), chegou a hora de a juventude mexer os ossos. Todo mundo de pé na plenária, fizemos um rápido aquecimento, mexendo braços e pernas, se espreguiçando, rebolando um pouco, movimentando os joelhos: estávamos dando um aviso para o corpo, para os músculos e para o cérebro, de que iríamos entrar em ação em breve.

Mais que em breve, quase imediatamente. Já saímos no trote pela porta principal do ginásio onde se realizava a plenária, no assentamento Nova Sarandi. No caminho, fomos chamando quem estivesse parado.

01 A CORRE primeiros no ar

Primeiro pelotão voa sobre a terra

A ordem era seguir correndo –ou caminhando, pois a atividade física é para todos, e de cada um devemos aproveitar a condição em que está no momento presente para que possa ir aos poucos melhorando sua condição.

Cá fora, não foi feita nova concentração. Os grupos foram sendo montados naturalmente. Uma turma disparou na frente, outros formaram segundo, terceiro, quarto, quinto pelotões de corredores, depois os caminhantes –estes em maior quantidade—foram se juntar ao grupo.

01 A CAMINHA

Turma de caminhantes enfrenta percurso com determinação

O percurso era uma demonstração nossa de carinho para a juventude sem terra gaúcha e para o próprio acampamento: corredores e caminhantes iríamos abraçar, com nossos passos, suor e alegria, o entorno do prédio onde se realizava a grande assembleia.

Saímos pela agrovila, que tem apenas um punhado de casas. No final da rua principal, cachorros que faziam guarda em uma oficina ladravam ferozes contra todo aquele movimento. Ainda bem que estavam firmemente acorrentados, pois senão poderiam fazer um belo estrago.

01 A CORRE mocambique

Jovem de Moçambique participa do abraço corrido e manda ver

Passando deles, já entramos em percurso rural, estrada de terra, chão batido, um dos pisos mais gostosos para correr. E finalmente vimos os campos em que trabalham os assentados da fazenda Annoni.

Talvez muitos dos jovens que participavam da corrida não tivessem tido até então, por causa dos tantos compromissos do Acampamento, oportunidade de apreciar a beleza da região em que estamos.

O trigal, ainda que muito machucado por causa da geada –em algumas glebas, a perda foi total–, aloira os campos acoxilhados. Aqui não há montanhas, mas morrinhos, pequenas elevações que se unem e se completam como num enorme tapete de sobe e desce, ondulando a paisagem como se fosse um mar de terra, verde e amarela.

Por isso mesmo, o trajeto escolhido para nosso abraço corrido, apesar de curto, era exigente. Subidas e descidas cobravam esforço da musculatura, mesmo de quem vinha em um passito descansado, charlando no más, como se diz pelos pampas.

E nem todo mundo estava paramentado para o desafio, o que só torna a coisa mais divertida e demonstra a disposição da juventude gaudéria.

Como a corrida foi uma grande improviso –planejado, por mais que pareça contraditório–, cada um veio como estava. Muita gente de chinelo de dedo e sandália enfrentou com galhardia a quilometragem na terra vermelha; algumas garotas de vestido mesmo não se apequenaram frente ao exercício.

01 A CORRE menina

Menina não permite que vestido atrapalhe sua disposição de correr

No fim, estávamos todos alegres, contentes, satisfeitos, suados. A turma dos latinos, com ajuda de mais alguns traquinas, tratou de montar uma fita de chegada.

Foi bem legal para os que chegavam correndo e rompiam a faixa, mas mais bacana ainda para os que aportavam cansados na última subida –a chegada era no ponto mais alto da coxinha. Para estes, palmas e gritos de incentivo faziam que abandonassem o passo curto, meio desanimado, virando em trote de sorriso aberto para encontrar a companheirada na chegada.

01 A CORRE alegria

Corrida é alegria e brincadeira

No final, todos os garotos e moças com quem conversei contavam que tinham tido uma experiência de alegria. Essa talvez seja a maior recompensa de quem corre, de quem desafia o próprio corpo e se entrega para a terra e para o asfalto: a alegria da conquista, a alegria de se movimentar, sair de si mesmo por alguns momentos e, desse mesmo jeito, encontrar a si mesmo.

01 A CORRE raul

A gente cansa, mas se diverte, parecem dizer os sorrisos dessa gurizada

Sem falar que a atividade física deixa qualquer um mais apto para enfrentar as agruras da vida e as dificuldades de eventuais embates.

Aliás, na manhã seguinte, todo o grupo teve de enfrentar outro desafio para sua capacidade aeróbica. Tratava-se de uma surpresa organizada pela comissão coordenadora do acampamento em colaboração com os assentados de região.

Acordamos todos neste domingo (1º de novembro) lá pelas quatro e meia da madrugada. Aos poucos, nos reunimos em frente ao ginásio onde se realizaram as assembleias. Pelo chão, instalações simbolizavam a luta pela terra e conquista da produção: frutos da lavoura estavam colocados em grandes peneiras de palha.

01 A MADRUGADA

Rapidamente, o grupo, centenas de jovens, ficou sabendo do que lhes estava sendo proposto: experimentar um gostinho do que foram as campanhas de caminhadas e ocupação no final da década de 1980.

Saímos todos em formação, três longas fileiras de juventude que ainda estava se acordando… Palavras de ordem e cantos ajudavam a despertar o pessoal; de um alto-falante, um casal contava o que foram aqueles momentos, na madrugada de 29 de outubro de 1989, quando aconteceu a ocupação da fazenda Annoni.

E assim fomos, descendo caminho de chão batido até chegar ao asfalto da estrada que liga Passo Fundo a Ronda Alta, passando por Pontão.

Naquele exato entroncamento ocorreu, no início de 1990, um enfrentamento sangrento com a Brigada Militar. Os acampados, em campanha para divulgar sua luta e chamar a atenção das autoridades para a situação em que vivia, realizavam várias marchas e caminhadas.

Naquele dia, porém, os brigadianos estavam a postos. De cassetete na mão e armas empunhadas, ameaçaram o povo desarmado que caminhava pela terra. E aí de quem tentasse avançar, chegar até a estrada principal!

Não eram mais as bordoadas, mas sim os cortes e as furadas com baioneta. Na caminhada da manhã deste domingo, ao meu lado estava um daqueles agricultores pioneiros, que guarda até hoje a cicatriz de um golpe de baioneta.

Nenhum dos feridos foi levado em ambulância ou atendido em hospital, que esse tipo de cuidado não era para aquele povo –assim pareciam pensar as autoridades. “Nós mesmos curamos, usando plantas, ervas”, me contou Mario Manfiolil.

Depois de quase uma hora de jornada, as três colunas de jovens caminhantes chegaram então ao seu destino. Estavam no local exato onde foi cortado o arame da cerca da fazenda Annoni para o início da ocupação.

01 A MURAL

Fizeram ali inauguração de um mural comemorativo aos 30 anos daquela luta. Realizaram um corte simbólico de arame farpado. E ouviram de Isaías Vedovatto a história dos acontecimentos daquela madrugada que virou um marco para o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem terra e para a luta pela democracia e por melhores condições de vida para o povo brasileiro.

Ao final da cerimônia, os jovens foram levados de volta à plenária em caminhões, lembrando a forma como se movimentavam as famílias de sem terra. Com este maratonista, um pequeno grupo resolveu encarar a pé a jornada de retorno –mais cinco quilômetros para a conta.

01 A CAMINHA campo

Apesar da emoção já tomara conta do grupo –não só pelas homenagens mas também por saberem que estava próxima a hora da despedida–, ainda pela manhã foram realizadas várias oficinas.

Houve aulas práticas de pichação, reunião de batucada, dicas para a produção de geleias e bijuterias, experiência com muralismo, discussões sobre questão de gênero e muitas outras. Até um espaço para conversar sobre o Maratonando com o MST, em que conversamos com um grupo animado, trocando ideias sobre como levar para os acampamentos e assentamentos a prática da atividade física, a universalização das corridas e caminhadas.

Estava chegando ao fim o Acampamento. Ainda houve uma festa de despedida, com cantos, danças, discursos, agradecimentos emocionados. E a leitura de um documento que resume os trabalhos e aponta os caminhos de luta dos jovens.

01  A ENCENA  FACAO

Fique agora com o texto produzido pelos rapazes e moças do Rio Grande do Sul.

CARTA DA JUVENTUDE SEM TERRA

“Somos filhos e filhas de uma história de luta”

Nós, juventude do Movimento dos Trabalhadores Rurais SEM TERRA, estivemos reunidos de 29 de outubro a 01 de novembro de 2015, no acampamento estadual da juventude Sem Terra, contamos com a participação de mais de seiscentos jovens de diversas organizações sociais do campo e da cidade, também contamos com a presença de 23 organizações sociais de 12 países. Junto ao acampamento aconteceu a comemoração dos trinta anos de ocupação da fazenda Anoni, essa ocupação é um marco da luta pela terra no Brasil.

Como filhos e filha de uma história de luta afirmamos que:

Só a luta do povo organizado em movimento fará as mudanças;

Afirmamos que são necessárias Mudanças estruturais na sociedade Brasileira, no seu modo de produção e sua matriz tecnológica, no modo de organização e participação do povo nas decisões.

O Agronegócio não produz alimento, ele produz desigualdades, e tem como objetivo produção de mercadoria, visa uma agricultura sem a necessidade do agricultor e agricultora, expulsando a juventude do campo.

A Reforma agraria é o caminho. Ela proporciona a produção de alimentos de qualidade devolvendo a população o direito de se alimentar e cumprindo assim a função social da terra que é produzir alimento.

Compromissos

Lutar contra o capital e o agronegócio, por esses ter só interesse na exploração dos trabalhadores, e no lucro,

Continuar a luta pela terra e pela reforma agraria popular e a produção de alimentos de qualidade e livre de agrotóxicos para toda a sociedade.

Cultivar os valores e princípios humanistas e Socialistas, pois esses são norteadores da construção na prática de nossos objetivos no dia a dia

Apropriar-se das técnicas da Agitação e propaganda como ferramenta de luta.

Fazer a luta internacionalista com o objetivo de somar forças no combate ao imperialismo.

Lutar: por uma Educação de qualidade para todos e todas, que permitam a emancipação humana.

Fortalecer a unidade e articulação entre os movimentos do campo e da cidade.

Lutar contra todas as formas de injustiça cometida aos seres humanos

Organizar a juventude nas nossas bases sociais, fortalecendo os grupos coletivos.

Denunciar toda a forma de opressão cometida, contra os trabalhadores e trabalhadoras, do campo e da cidade.

Lutar contra todas as formas de preconceito: homofobia, machismo, racismo….

Denunciar a mídia burguesa, e todos os tipos de meios de comunicação ditatoriais, que nos padronizam, nos enganam, mentem e nos alienam perante a sociedade.

Acreditamos no poder e força da juventude na continuidade da luta por uma sociedade mais justa e igualitária.

Seguimos animados na luta, enquanto houver injustiças cometidas contra os seres humanos, estaremos lutando.

Somos lutadores e lutadoras, construtores e construtoras do novo.

Lutar, Construir Reforma Agraria Popular

Sarandi, RS, 01 de novembro de 2015

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