Corrida das padeiras

P corrida cachorrinho

Ainda de touca, a padeira Ínes Botini corre com grupo — Fotos Eleonora de Lucena

As maçãs do rosto foram se afogueando, ficando rosas, vermelhinhas, o suor pingando da testa, o sorriso no rosto virando risada. Depois de um duro turno em frente a fornos industriais, cuidando de quilos e quilos de pães, cucas e biscoitos, as padeiras saíram para experimentar uma caminhada. Algumas se desafiaram ainda mais e chegaram a correr no campo de futebol do setor D, Águas Claras, no assentamento Filhos de Sepé, em Viamão.

Uma das corredoras foi dona Julieta Zang, 64, que, mesmo de chinelo de dedo, correu firme um dos lados do gramado. Ínes Botini, 50, coordenadora dos trabalhos na padaria, foi ainda mais além e fez a volta completa em um trote determinado.

Diferentemente das demais, as duas já tinham experiência anterior com exercício físico, aprendido com a própria vida, pelas exigências do trabalho. É que, há cinco anos, quando o panifício da Cooperavi –Cooperativa dos Produtores Orgânicos de Reforma Agrária—começou, as instalações eram no setor A (Sepé Tiaraju), distante cerca de cinco quilômetros da casa das duas.

P caminhada

O grupo se encaminha para o campo onde será realizada a oficina de corrida

Vai daí que, depois de suas jornadas de trabalho, Julieta e Ínes (pronuncia-se assim, com a tônica no “I”), cada uma na sua hora, voltavam muitas vezes a pé para suas moradias, onde ainda tratavam de cuidar da horta –tudo orgânica, sem veneno, sem adubo químico.

“Com aquela caminhada, eu me sentia melhor”, lembra Botini. “Trabalhava seis horas, saía de lá a pé, vinha até em casa e estava bem. Resolvi continuar porque estava me fazendo bem.”

Apesar dos bons resultados, a determinação durou um tempo apenas. Como acontece com muitos de nós, as exigências da vida e do trabalho acabam fazendo com que a gente se esqueça de si mesmo e de como é importante tirar uma horinha do dia para relaxar, fortalecer o corpo e o espírito para seguir a luta de cada dia.

“Com o exercício, tu tens a convivência social e tens o teu momento emocional. A coisa melhor é a energia que as crianças me passam”, conta Leonildo Zang, 62, que pratica capoeira semanalmente em um grupo em que também jogam seus três netos.

Pcapoeira

Com seus netos, Leonildo Zang faz demonstração de capoeira –as aulas são neste salão, ali mesmo  no assentamento

E energia o povo dali preciso muito para enfrentar cerca de dois anos de acampamento, que se iniciou na região noroeste de Rio Grande do Sul e, pelas circunstâncias da luta, teve de se movimentar por boa parte do sul do Estado. Até em Bagé os acampados ficaram, além de terem passado vários meses na estrada. A luta os levou em monumental caminhada até Porto Alegre, em 1997; um ano depois, finalmente saiu a oficialização do assentamento, e as famílias conquistaram seus lotes em Viamão, na região metropolitana, do ladinho mesmo de Porto Alegre.

O terreno todo tem cerca de dez mil hectares, mas grande parte não pode ser trabalhada por ficar em área de proteção ambiental.

Área de banhado, o assentamento abriga o Refúgio da Vida Silvestre Banhado dos Pachecos, onde existem mais de 200 espécies de aves e animais maiores, como o jacaré do papo amarelo e o cervo do pantanal. E há uma bela de uma represa  (foto abaixo), de onde sai a água para a irrigação da lavoura.

P represa

Atualmente, as mais de 370 famílias assentadas na região podem cultivar até 1.600 hectares com arroz orgânico –a região não aceita veneno.

Apesar de a temporada de chuvas deste ano ter sido maior e mais poderosa do que o esperado, calculam chegar a cultivar 1.350 hectares, mantendo a posição como maior produtora de arroz orgânico do país. Na safra 2013/2014, a colheita foi de 120 mil sacas. Ainda que haja queda neste ano, o Filhos de Sepé segue como grande produtor de arroz sem veneno, comercializado com a marca Terra Livre.

Foi para administrar o uso de máquinas para o plantio e colheita de arroz que surgiu a Cooperativa, nos primeiros anos da década passada. Logo aprimorou suas atividades, cuidando também do beneficiamento do grão e da comercialização.

As mulheres até participavam da Cooperavi, mas de maneira muito incipiente.

P roseli

Presidenta da Cooperavi, Roseli Cantarolli faz parte da primeira turma de medicina veterinária organizada pelo MST

“Elas não conseguiam debater porque não estavam inseridas na produção”, diz Roseli Cantarolli, que tomou posse em agosto passado como presidenta da Cooperavi.

Hoje prestes a se formar na primeira turma de medicina veterinária organizada pelo MST –funciona na Universidade Federal de Pelotas–, Roseli foi uma das articuladoras da movimentação da mulherada no assentamento Filhos de Sepé, lá por volta de 2010.

“Juntamos um grupo de mulheres e começamos a debater o que fazer. Com apoio do movimento, fizemos um projeto para comprar máquinas e criar um panifício.”

Era uma estrutura modesta, que inicialmente funcionou na casa de uma das mulheres participantes, no setor A –o assentamento é dividido em quatro setores. Em pouco tempo, passaram a fornecer pães e biscoitos para a merenda escolar na região.

Não sem alguns problemas, como recorda Roseli: “Nosso primeiro pedido foi um pedido muito grande, a gente não tinha estrutura. Era cuca colonial, e a gente calculou por fatia junto com o diretor da escola, e ele determinou que seriam três mil quilos de cuca!”

O entusiasmo foi grande, mas também havia riscos: “Nós nos atracamos a fazer. E não tínhamos experiências de fazer em grande quantidade”, lembra a dirigente.

O resultado?

“As primeiras cucas ficaram lindas, mas depois, assando rápido, elas cresciam e depois murchavam, não assavam direito. E nós não sabíamos disso. Por que a primeiras ficavam boas? Porque o forno estava no ponto ideal. Depois que ele esquentava muito, as cucas assavam muito rápido e no meio ficavam cruas. Bah, mas perdemos um monte…”

Ao fim e ao cabo, jogando fora as cucas estragadas, acabaram conseguindo cumprir o pedido. Que, na verdade, era muito mais do que a escola precisava, como as próprias padeiras tinham advertido.

“Fizemos, entregamos. Quando chegou na escola, o diretor viu que tinha errado os cálculos. Eles ficaram comendo cuca uns três, quatro meses. Eles congelaram… Umas 200 cucas teriam dado para todo mundo, nós fizemos 700, 800 cucas…”

Valeu. “A partir disso, a gente viu que poderia dar certo. No início, como a gente tinha feito um empréstimo, ninguém ganhava nada. Mas a gente foi fazendo e vendendo, pagamos, depois começamos a dividir o que sobrava.”

P ines padoca

Ínes Botini é a coordenadora das trabalhadoras no panifício, que produz fornadas de biscoito, pães e cucas

Depois de cerca de um ano nas instalações improvisadas, a Cooperavi decidiu investir na construção de um prédio especial para o panifício, com espaço também para um novo projeto, a agroindústria de vegetais. Os dois funcionam nas instalações construídas no setor D do assentamento Filhos de Sepé.

O que começou com apenas quatro mulheres chegou a ter 15 mulheres divididas em três turnos de seis horas cada uma. Hoje, a equipe chega a oito mulheres e há também os trabalhadores na agroindústria de vegetais.

“Isso de fato fez diferença para a vida delas. Elas falam, hoje eu tenho isso, uma mesa, um guarda-roupa, porque eu consegui. Muitas delas trabalhavam de faxineira na vila ou em Porto alegre. Elas deixaram de trabalhar fora para trabalhar aqui dentro, o resgate para dentro do assentamento”, diz Roseli.

Como deu certo, elas agora buscam outros desafios. Hoje são capazes de atender grandes pedidos –na última semana, fizeram uma entrega de 720 pães para um cliente de Porto Alegre.

Cada um dos dois fornos assa de 25 kg a 30 kg de pão por vez ou cerca de 15 kg de biscoitos. Por isso, além de seus clientes tradicionais, as padeiras lideradas por Ínes Botini estão buscando outras áreas de comercialização, com em feiras.

E começam a utilizar na produção matéria-prima gerada no próprio assentamento. Aos poucos, as receitas do panifício incorporam farinha de arroz.

Já a agroindústria de vegetais tem como cliente principal a rede hospitalar, para onde fornecem os vegetais higienizados e embalados –alface em unidades, couve picada–, além de aipim congelado.

Na parte de vegetais, houve um tentativa de aproveitar o trabalho da juventude do assentamento –um processo que ainda está dentro dos planos do grupo. Alguns problemas, porém, fizeram com que a turma do trabalho se modificasse. Hoje há dois homens, um jovem e um grupo de mulheres trabalhando na agroindústria.

P julieta

Julieta Zang mostra fotografia em que aparece com seus pais

Uma delas é dona Julieta: “A parte bruta, a gente vai deixando para os homens. Eles não conseguem fazer a parte lá dentro, a parte mais melindrosa, ali parece que tem de ser mulher para fazer a coisa andar. Eles têm a mão pesada, não têm aquela habilidade, a gente acostumou desde crianças, em casa, cozinha, lavar roupa, as mãos da gente são rápidas.”

Também foram rápidas as padeiras que decidiram acompanhar a caminhada no meio da tarde, no início desta semana em Viamão.

Todas apresentavam um sorriso no rosto, aproveitaram a diversão. Talvez a mais satisfeita, porém, tenha sido Ínes, que viu que ainda conseguia correr e aproveitar as sensações do movimento.

“Foi muito bom!! Quando você vai correndo e sente o vento, o arzinho do entardecer te batendo no rosto dá uma sensação muito boa! Com esse incentivo de hoje, eu quero continuar caminhando, tentando correr”, disse ela.

P time

Tomara que consiga. E que o time das padeiras siga em frente produzindo, caminhando, correndo e se divertindo.

Vamo que vamo!

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