Apesar do preconceito, sem terras têm primeira turma de veterinários

A criação orgânica de bovinos –usando, por exemplo, arroz orgânico na alimentação dos animais— é o tema do mestrado em medicina veterinária que Roseli Canzarolli começa a cursar neste ano na Universidade Federal de Santa Catarina. Além dela, outros quatro filhos de trabalhadores rurais sem terra também vão continuar na UFSC a sua formação na área, depois de terem se formado em um inédito curso de graduação realizado na Universidade Federal de Pelotas.

Os cinco integram um grupo de 45 formandos que acabam de completar os estudos na primeira turma de medicina veterinária voltada para assentados da reforma agrária. O inédito curso foi realizado na Universidade Federal de Pelotas, superando preconceitos, discriminação e duríssimas cobranças acadêmicas.

Basta dizer que, depois de autorizado pelas autoridades federais, o curso demorou quatro anos para efetivamente começar. O motivo: impedimentos colocados por representantes de grandes proprietários rurais do Rio Grande do Sul. Eles não admitiam que filhos de sem terra pudessem ter esse nível de estudo.

Aprovado em 2006 pelo Programa Nacional de Reforça Agrária (Pronera), o curso iria iniciar no ano seguinte. Dos 120 inscritos no vestibular de 2007, 60 conseguiram passar, ocupando todas as vagas disponíveis. Mas o curso não começou.

“A Faculdade de Veterinária rejeitou o curso, mesmo com a aprovação pelo Conselho Universitário na época. Depois de protestos de entidades ruralistas e de estudantes ligados ao setor agrário, que viam no curso uma invasão do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na universidade, o Ministério Público Federal ingressou com uma ação civil pública em 2008 impedindo a abertura do curso”, diz reportagem publicada no site de notícias “Último Segundo”.

Para o vice-presidente da Associação Rural de Pelotas, Rodrigo Costa, “a seleção tinha critérios subjetivos e o currículo proposto privilegiava uma discussão ideológica em detrimento dos conhecimentos técnicos e científicos”.

Não era verdade, como foi demonstrado no processo judicial. “A grade curricular é a mesma. Não é uma formação diferente nem inferior. A única diferença é no tempo de aula, já que o calendário é mais reduzido”, disse a então coordenadora nacional do Pronera, Clarice dos Santos.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) deu em 2010 decisão favorável ao Incra e o curso foi reaberto. Dos 60 aprovados em 2007, apenas 26 se inscreveram novamente. Com 250 candidatos, um segundo vestibular foi realizado para preencher as 34 vagas restantes. E o curso foi iniciado em 2011.

roseli

Na primeira aula, lá estava Roseli, 42 (foto), que hoje é presidenta da Cooperavi (Cooperativa dos Produtores Orgânicos de Reforma Agrária de Viamão). Na época, ela já vivia e trabalhava no assentamento Filho de Sepé, na região metropolitana de Porto Alegre.

Não foi fácil compatibilizar os estudos, ainda mais com uma filha pequena –sua Julieta tinha então três anos–, como Roseli me contou em novembro passado, quando visitei o assentamento (leia mais AQUI).

Para piorar as coisas, ela e seus colegas foram vítimas de preconceito e discriminação, especialmente nos primeiros anos do curso de veterinária.

“No primeiro semestre, tivemos as aulas em salas separadas, no centro. Não tínhamos aulas no campus, íamos lá apenas para as aulas de anatomia”, lembra ela. E a ida dos sem terra ao campus tinha de ser monitorada por um dos professores, mentor do curso: “Na primeira entrada nossa no campus, os outros estudantes estavam preparados, fazendo manifestação contra, não querendo nos deixar estudar”.

O preconceito era tamanho que até mesmo alguns professores não queriam dar aula para os filhos de assentados. Os estudantes tiveram de negociar com a universidade para superar alguns entraves.

Uma disciplina que deveria ser cursada no quarto semestre, por exemplo, só foi efetivamente realizada no oitavo, depois que as resistências do professor envolvido fossem quebradas.

Em outra, uma cadeira especialmente difícil e complicada, a professora fazia uma espécie de terrorismo: “Vocês acham que está ruim? Nada é tão ruim que não possa piorar”, costumava dizer a mestra.

Qualquer deslize dos alunos poderia redundar em eliminação do curso, pois as condições acordadas para a realização foram draconianas: média 7, sem reprovação em nenhuma cadeira. Não havia possibilidade de trabalhos de recuperação ou mesmo de repetição de disciplina (prática normal em cursos convencionais): quem não fosse aprovado em todas as disciplinas ofertadas em cada semestre estaria automaticamente fora do curso.

Os alunos, conta Roseli, responderam com estudo, apesar das condições precárias em que foram colocadas.

Para a manutenção do curso, o UFPel recebia do Incra cerca de R$ 5.000 por estudante –eram 41 homens e 19 mulheres, oriundos de nove Estados. Mesmo assim, o alojamento em que foram inicialmente colocados estava abaixo do precário –uma quadra esportiva em um ginásio desativado da Associação Atlética Banco do Brasil.

Chegou a haver uma discussão sobre construção ou reforma de instalações antes de ser dado início ao curso, mas os estudantes preferiram começar logo os trabalhos para não dar chance ao surgimento de outras tentativas de destruição do projeto.

“Nos primeiros dias, a gente dormia no chão mesmo, só com alguma coberta, porque nem colchão tinha sido levado”, conta Roseli. Com dinheiro fornecido pelo próprio Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, compraram divisórias para separar o alojamento em áreas feminina e masculina.

Por longo tempo continuou assim. “O pior mesmo era para estudar. O ginásio de esportes era uma caixa de ressonância. Ficava bem perto do estádio do Brasil de Pelotas; nos fins de semana, quando tinha jogo, parecia que a partida era ali mesmo”.

Nas ruas da cidade, filhos de fazendeiros faziam provocações. Os alunos especiais –como eram chamados os que estavam cursando a Veterinária do MST— saíam em grupos para evitar ataques. Mesmo assim, houve pelo menos um caso de agressão, segundo lembra Roseli.

Com o tempo, as coisas foram se acertando, acalmando.  Mesmo professores que tinham sido contrários ao curso acabaram aceitando a turma de pioneiros –em 2013, começou a funcionar a segunda turma de Medicina Veterinária para assentados da reforma agrária.

E, no dia 18 de dezembro de 2015, em ato solene na Universidade Federal de Pelotas, 45 filhos e filhas de sem terra colaram grau.

formandos

“Não é só uma conquista individual, mas uma conquista da classe trabalhadora”, resumiu Cristina de Fragas, 28 anos, formanda do assentamento da antiga Fazenda Annoni, localizado em Pontão, região norte do Estado.

Oradora da turma, Roseli Canzarolli afirmou: “Nosso compromisso é nunca esquecer que viemos dos assentamentos e acampamentos. Ao MST: conte com essas médicas e médicos veterinários, mas, principalmente, com homens e mulheres dispostos a encarar a luta por um Brasil sem cercas”.

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