Marcha de jovens visita cemitério onde estão enterradas vítimas do Massacre de Eldorados dos Carajás

 

“Eu sô viado!, sô sapatão!, eu tô aqui prá fazer revolução!”.

Cantada em altos brados, embalada por animado batuque, a palavra de ordem ganhava ritmo de Carnaval progressista nas vozes e requebros de militantes do setor LGBT sem terra e surpreendia quem imaginava a militância camponesa como um grupo sisudo, conservador, pouco afeito a discussões envolvendo questões de gênero e o mundo da afetividade –eu, por exemplo.

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Fotos Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

Sempre soube do papel de destaque das mulheres nas lutas do movimento sem terra, lutando lado a lado com os homens em quaisquer trincheiras que fossem necessárias. Não poucas vezes, tomaram a frente em choques com a polícia e jagunços de latifundiários.

Por isso mesmo, o movimento feminino sempre teve força nas hostes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, com participação e presença ativa nas diversas instâncias de decisão. Em alguns assentamentos, todo o grupo se organiza para que as mulheres possam ter condições igualitárias de atuação no trabalho e no lazer.

Desde que comecei o projeto Maratonando com o MST, percebi que os movimentos sociais estavam abrindo as portas para grupos de gays, lésbicas, travestis e quem mais quisesse participar do processo de luta.

Na primeira reunião a que assisti, uma conferência municipal da juventude em Santa Maria da Boa Vista, sertão de Pernambuco, vi um garoto gay se levantar na assembleia para propor que questões de gênero fossem incluídas nas resoluções do encontro.

Achei muito legal o espaço dado a ele, que falou de forma desabrida, como sabendo de antemão que seu discurso seria acolhido.

Aquela intervenção, porém, estava a anos-luz de distância da presença colorida e dançarina do setor LGBT no 11º Acampamento Oziel Alves Pereira, encontro pedagógico da juventude sem terra que marcou os 20 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás e foi realizado de 11 a 17 de abril na Curva do S, exato local da chacina.

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“Sendo do setor LGBT sem terra, a gente está aqui para reivindicar os nossos direitos e para mostrar que nós podemos fazer um Brasil mais social e de uma igualdade diferente”, me disse Silas da Conceição, da coordenação estadual da juventude do Maranhão.

Com bandeira e bateria, participaram das plenárias e disseram presente na marcha dos jovens rumo ao cemitério onde está enterrada a maioria das vítimas do Massacre.

Longe de ser uma jornada fúnebre, a caminhada dos jovens foi uma denúncia da impunidade do crime e um anúncio de sua decisão de luta para que casos como aquele nunca mais venham a acontecer.

No meio da tarde de 13 de abril, quente e úmida como só o sudeste paraense consegue ser, os ônibus com a meninada começaram a chegar aos poucos ao quilômetro 30 da rodovia PA-275.

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A marca rodoviária foi durante muito tempo a única identificação na vila que se formava na região, no final dos anos 1970.

Em uma área, boates, cabarés, inferninhos e bares, o mundo da diversão esperava os felizardos que buscavam fortuna na Serra Pelada e outras minas próximas. Em outra, famílias de garimpeiros esperavam a volta de seus mantenedores.

Percebendo a movimentação e temendo eventuais explosões sociais –a região da Guerrilha do Araguaia, desenrolada do final dos anos 1960 a meados da década de 1970, fica relativamente próxima dali–, o governo militar nomeou como interventor o famigerado major Sebastião Curió. Ele ganhara notoriedade pela violência com que combatera os guerrilheiros.

Transformado em cacique político, o interventor acabou homenageado pelos colonos, virando nome da cidade quando a vila se emancipou. Mesmo assim, na região, muita gente ainda se refere ao local simplesmente como Trinta.

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Foi ali que, em 1996, se concentrou a maior parte do grupo de sem terra que realizaria a caminhada encerrada a bala por policias e jagunços a mando do então governador do Pará, Almir Gabriel, do PSDB.

É ali que, há onze anos, a juventude que participa dos encontros realizados pelo MST se reúne para homenagear seus mortos e anunciar seu propósito de continuar a luta por reforma agrária e muito mais.

“Liberdade para nossos sonhos!” era um dos gritos que ecoava na caminhada, reunindo mais de duas centenas de jovens de quase todos os Estados brasileiros –pela primeira vez, o Acampamento Oziel Alves Pereira teve neste ano caráter nacional.

Serpenteando pelas ruas de Curionópolis, a marcha cobriu aos poucos os cerca de três quilômetros entre a rodovia e o cemitério da cidade, onde foi enterrada a maioria dos 19 mortos na chacina –o corpo de Oziel foi levado a Parauapebas, onde vivia sua família, e houve enterros também em Eldorado dos Carajás e em Marabá.

dia 2 percurso

Além dos cantos e das palavras de ordem, os jovens fizeram também uma espécie de liturgia. Quando chegou a noite, cada um acendeu uma pequena vela; no cemitério, na área em que estão as sepulturas dos caídos no massacre, deixaram cruzes que carregaram durante a passeata.

Um a um, foram lidos os nomes dos mortos: Altamiro Ricardo da Silva, 42, Antonio Costa Dias, 27, Raimundo Lopes Pereira, 20, Leonardo Batista Almeida, 46, Graciano Olimpio de Almeida, José Ribamar Alves de Souza, 22, Oziel Alves Pereira, 17, Robson Vitor Sobrinho, 25, Amâncio dos Santos Silva, 42, Valdemir Ferreira da Silva, Joaquim Pereira Veras, 32, João Rodrigues Araújo, Manoel Gomes de Souza, 49, Lourival da Costa Santana, 26, Antonio Alves da Cruz, 59, Abílio Alves Rabelo, 57, João Carneiro da Silva, Antonio, José Alves da Silva, 65.

Eles foram enterrados três dias depois da chacina, conforme relato do jornalista Eric Nepomuceno no livro “O Massacre”, que conta o seguinte:

“Por volta das seis da tarde da sexta-feira, 19 de abril de 1996, os caixões com os corpos dos 19 mortos de dois antes, em Eldorado dos Carajás, foram postos na carroceria de um caminhão e levados para Curionópolis, onde familiares e amigos esperavam desde a noite anterior.”

blog trabalhadores veem fotos do enterrop

Vinte anos depois, público vê exposição de fotos do velório e enterro das vítimas do Massacre

“Chegando lá, começou o penoso processo de identificação dos mortos. Nas autópsias, eles foram identificados como `ignorado número 1`, e assim, em sequência, até o número 19. Muitos estavam de tal modo deformados que só puderam ser reconhecidos por meio de uma tenebrosa comparação com suas fotos, registradas na entrada do corpo, no necrotério de Marabá. Muitos familiares desmaiaram durante o reconhecimento, ao ver o estado em que se encontravam os corpos. Essa jornada macabra só terminou  ao amanhecer do dia 20 de abril.”

Eleonora e eu conversamos dona Helena Alves dos Santos Rabelo, 65, viúva de Abílio. Não sei se algum dia ela foi conversadora, mas hoje é de pouca fala, fisionomia fechada, que só se abre em sorriso quando a neta lhe pula ao colo. Mora em uma casa de esquina, em uma das últimas ruas do assentamento 17 de Abril.

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Nascida em São Pedro dos Cacetes, vilarejo do Maranhão, se veio com quatro filhos para Curionópolis no início do anos 1980. O marido tinha vindo antes, era um dos mais de cem mil garimpeiros que transformaram Serra Pelada em um formigueiro de gente.

“Depois o garimpo pifou, ficamos por ali mesmo. Eu ficava em casa, ele que andava por aí, procurando o que fazer, até que aconteceu esse massacre.”

Só na noite de 17 de abril, horas depois da chacina, Helena ficou sabendo que ficara viúva.

“Esse povo não queria dizer, sei lá. De noite, meu menino foi para lá, e queriam matar ele também, e ele, meio agoniado, e uma vizinha que morava por lá tirou ele. Foi uma tragédia muito doida.”

O corpo de Abílio, como os dos outros, foi levado para Marabá. “De lá, nem encostaram em casa, foi direto para a igreja e, de lá, para o cemitério. Já estava meio ruim…”

Mal pode ver o marido: “A gente viu só o rosto, porque tinha aquele vidrinho lá. Também dava de ver o tiro, que foi perto do pescoço. O pessoal falou também que tinham quebrado as pernas dele. Isso a gente não pode ver. E a gente vem pendengando de lá para cá com nós mesmos, os quatro filhos e os netos.”

blog viuva e neta porta

Ela não entrou com processo na Justiça. “Como é que a gente entra, sem a gente saber quem matou e quem não matou? Negócio com polícia mesmo só Deus do céu, por que outras pessoas… Aqui no nosso Brasil a Justiça é só para quem tem dinheiro.”

Logo depois do massacre, o medo dominou muitas das famílias que vinham lutando pela terra, como lembra Haroldo de Oliveira, responsável pelo sistema de comunicação pública no assentamento 17 de Abril.

blog haroldo

“Houve gente que passou mais de um mês até voltar para a cidade. Ficou escondida, família procurando, até as Forças Armadas, Teve muita gente que abandonou o acampamento.”

Naquela época, Haroldo, que hoje tem 36 anos e comanda o serviço de informações por alto-falantes conhecido como A Voz, já fazia parte do movimento. Então adolescente, participara com sua família das lutas pela terra, ficara acampado e integrou a marcha atacada pela polícia na Curva do S.

“Eu e minha mãe, nós tínhamos feito um banheiro, ela ficou lá atrás, eu fiquei no mato, atrás de umas pedras, lá onde hoje é o Monumento das Castanheiras. Fui me arrastando até ali, com a barriga no chão, passei por cima de sangue dos companheiros, fiquei ali deitado. Eles atiraram até as seis horas da tarde, disparavam para dentro do mato. Depois eles começaram a organizar, a juntar os corpos, organizar a passagem dos carros, a liberação da pista. Na manhã seguinte, a gente voltou para a localidade e vimos realmente os estragos que tinham acontecido. Tinha gente ferida dentro do mato, tinham muitos companheiros ainda, na Curva do S ali, tentando se recuperar. Tentando achar os parentes dentro do mato. Era uma área muito alagada, em tempo de chuva era muito alagada, muita gente estava dentro das águas, tentando se refugiar.”

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Monumento em homenagem aos mortos no massacre de Carkás

O movimento tratou de buscar a reaproximação dos desgarrados. “Foi uma jornada de três meses para reaproximar. Nós conseguimos nessa reaproximação em média 60% dos companheiros, umas 800, 900 pessoas. Esses companheiros ainda foram induzidos pelo governo, que inicialmente tentou calar a boca da mídia, calar a boca dos próprios companheiros que estavam na luta. Eles fizeram essa proposta dos acampamentos, de oferecer terra a 200 quilômetros longe do convívio social da cidade. Muita gente aceitou. Estavam com medo de continuar na luta e com medo de novos massacres, novos ataques porque nós estávamos em uma área dentro da mata.”

Quem ficou começou a articular nova ocupação, lembra Haroldo. “Nós resistimos. Nesse período foi um período de resistência. Tivemos a visita de muitas autoridades, muitos companheiros que ajudaram, das igrejas, da direção nacional do MST, visita de muitos companheiros políticos, jurídicos, tanto da CPT como dos próprios movimentos sociais, que ajudaram e gente política, o Lula esteve presente no acampamento, veio prestar sua solidariedade com o povo. Teve ali junto com e povo e encorajou o povo a continuar na luta.”

A persistência deu frutos.  Saiu o assentamento hoje chamado de 17 de Abril, abrigando 690 famílias, cada uma com direito a 25 hectares de terra para trabalhar. “Não foi fácil”, resume Haroldo.

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