Corrida movimenta escola Oziel Alves Pereira

Dona Sebastiana quebrava coco. Não tinha nem trinta anos, mas o cansaço lhe envelhecia.

Aos 25, ficara viúva, sozinha no mundo em Paulo Ramos, cidadezinha no interior do Maranhão Tinha dez filhos para criar e esperava mais um. Não deu nem um para vizinho ou parente cuidar.

“Quebrava coco, juntava o coco. Meus irmãos e irmãs mais velhos auxiliavam. Alguns iam na parte da manhã trabalhar com ela, outros ficavam na escola. Os que estudavam na parte da manhã revezavam com os que estudavam à tarde.  Como nós éramos muitos, sempre ficava alguém auxiliando. E só produzia o necessário para comprar o almoço e a janta. Não tinha muita alternativa.”

Quem conta é o oitavo da linhagem de onze filhos, Severiano Sampaio Nascimento. O coco quebrado era o babaçu.

“É uma espécie de fruto, mais ou menos uns dez centímetros de diâmetro, eles têm, no seu interior, bagos. Do babaçu se utilizava tudo. Tinha uma espécie de ferramenta, o machadinho, a pessoa fincava o machado no chão, sentava, e com o pau, o chamado macete, quebrava o coco. Segurava o babaçu com uma mão e com outra ia quebrando. Abrindo, abria a banda, no interior dele tinha os bagos. Tinha babaçu, até seis, quatro, três no seu interior. Aquele bago que era o principal produto. Ele a gente vendia no comércio para poder comprar o arroz, a farinha. O resto, que era a casca, a gente fazia o carvão, para o nosso consumo, e também vendia. Do babaçu, a gente aproveitava tudo.”

dia 3 cena no assentamento

Cena no assentamento 17 de Abril, em Eldorado dos Carajás – Fotos Eleonora de Lucena

Trabalho duro. “Quando o filho crescia, 15, 16 anos, principalmente o homem, quando alcançava essa idade, ficava com vergonha de ir quebrar coco, de juntar coco, de fazer carvão. Além de ser na nossa mente humilhante, também não dava nenhuma alternativa.”

Assim, Izonete partiu para São Paulo, Izônia também foi buscar vida melhor.  Ivânio ouviu falar do garimpo de Serra Pelada, juntou suas coisinhas e se mandou. Severiano, oitavo filho, já estava entre os mais velhos –três dos que restavam eram deficientes, atingidos por paralisia infantil. “Não podia sair e deixar minha mãe com essas crianças.”

Quem partiu foi a mãe, Sebastiana. O que a levou foi o massacre.

“A gente pegou os noticiários pela televisão. Quando minha mãe assistiu, ela sabia que o filho dela estava aqui, que no caso é o meu irmão. Como ela viu, ela se desesperou e imaginou que ele fosse um dos mortos. Na televisão, as cenas que passavam eram cenas de filme. Ela ficou muito atormentada com isso.”

Ivânio já tinha dado notícia de que estava em busca de terra, de vida melhor. O garimpo já não estava dando como esperava, muita violência –e ele era um sujeito do campo.

“Meu irmão participou desde o início”, conta Severiano, que hoje é casado, tem quatro filhos e trabalha como diretor na escola municipal Oziel Alves Pereira, no assentamento 17 de abril.

“Ele entrou no dia cinco de novembro de 1995, lá na Cofopag, no primeiro acampamento em Curionópolis. Foi quase por acaso. Eles estavam em Serra Pelada, tinha descido para Curionópolis para fazer uma compra de rancho e voltar para a Serra Pelada. Ele chega no posto, vê aquela aglomeração, e ele encosta, alguém diz: “Bora para cá que nós vamos ganhar uma terra.”  Ele estava com o rancho, e disse: “Vou ficar aqui”. Eu vou pegar o rancho e vou lá para o garimpo, para a Serra Pelada, trabalhar para os outros? Eu vou ficar aqui e vou ganhar a minha terra.” Aí já ficou.”

dia 3 VA ABRE

A decisão de Ivânio mudou a vida da família Nascimento. Ele era um dos milhares de homens, mulheres e crianças acampados na Curva do S quando a polícia atacou os sem terra.

Vistas pela TV, as imagens deixaram dona Sebastiana enlouquecida. Precisava proteger o filho distante  –ou enterrá-lo, não sabia o quê. Com uma filha, saiu do Maranhão para o Pará sem ter mais o quê.

“Eu fiquei sozinho”, diz Severiano. O menino tinha terminado a quarta série, conseguira passar nos testes para cursar uma escola melhor, distante 28 quilômetros do local em que vivia.

“Nós não tínhamos nada. Tínhamos uma casa, que era a casa conhecida com pau a pique, levantados uns paus, e tampado com taipa, barro. E coberto da palha do próprio babaçu. A gente tinha uma casa dessas. Eu ficava 15 dias na escola. Estudava os três períodos, manhã, tarde e noite, e 15 dias eu ficava em casa. Eu tinha tio, tia, avô, eles me ajudavam nessa situação.”

Em Eldorado dos Carajás, dona Sebastiana descobriu o filho vivo. Ivânio continuou na luta, acabou conquistando um dos 590 lotes do assentamento 17 de Abril. Começaram a trabalhar, a família precisava se reunir.

dia 3 cena assentamento

Era o ano de 1998. No assentamento, o lote começava a produzir. No Maranhão, Severiano cursava a sétima série, queria ir até o fim. Mas o chamado da mãe chamou mais alto.

“Terminei a sétima série aqui nesta escola, fiz também a oitava aqui”, lembra o hoje diretor da Oziel Alves Pereira, responsável por cerca de 900 alunos. Na época, as instalações não eram tão portentosas como hoje, com vários e amplos prédios de alvenaria, auditório, salas de reuniões e quadra de esportes, mas funcionavam.

“A pedagogia do movimento é o seguinte: colocou uma bandeira do MST em uma área para ocupar, a primeira coisa que se cria é a escola. Antes de fazer qualquer coisa, até mesmo o primeiro barraco, o que se pensa em fazer é o barraco para funcionar como escola. Hoje nós estamos com essa escola que tem o nome de Oziel Alves Pereira, mas ela não começou aqui. Ela começou antes, justamente lá no município de Curionópolis, num localzinho chamado Cofopac, embaixo de lona preta.”

A julgar pelos resultados, o ensino foi de boa qualidade: muitos dos e chamados filhos da lona preta são hoje professores na escola, como diz Severiano, que também é auxiliar do pastor evangélico da comunidade: “Eu sou o exemplo disso. Eu e mais a minha própria esposa, que hoje é coordenadora pedagógica do ensino infantil ao quinto ano. A outra coordenadora do sexto ao nono e mais uma porção de professores que hoje trabalham nessa escola foram alunos, assim como nós. A grande maioria do quadro de efetivos dessa escola estudou aqui. São filhos de assentados. Se não filhos, parentes de assentados ou o próprio assentado”.

dia 3 alongamento

Cada um deles tem sua história de luta, de horas dedicadas ao estudo depois de horas dedicadas ao trabalho no campo. Ou à conquista do bem-querer. Como Severiano, que chegou ao assentamento 17 de Abril em 1998, com 19 anos, e em poucos anos conheceu e começou a namorar Jaqueline, hoje sua esposa.

“O pai dela me chamou, não sei se era para fazer uma espécie de teste, para saber se realmente eu tinha condições de assumir a filha dele. Só que a proposta dele era essa. Ele disse: “Eu não tenho condições de te pagar um salário”. Na época ele tinha oito lotes e cuidava de mais dois, tinha umas 350, 400 cabeças de. Era para eu cuidar desse gado. Em troca, eu deveria tirar o leite das  vacas paridas, e eu ia fazer o meu salário com o leite.”

Proposta de futuro sogro não dá para enjeitar, não é? Severiano aceitou.

“Saía da vila de bicicleta às 3h45, chovendo ou não, rodava sete quilômetros pelo meio dos lotes, em trilhos, veredas. Gastava quinze a vinte minutos para chegar lá, mais outro tanto para fechar as vacas, e tocava a tirar leite. Às vezes o leiteiro chagava sete horas da manhã, eu tinha que estar com esse leite tirado porque era o meu salário.”

No final do dia, depois de tratar do gado do futuro sogro, fazia o curso de magistério, equivalente ao segundo grau. Casou no final de 2003, no ano seguinte fez concurso para professor, passou, iniciou nova carreira.

familia severiano

Severiano e sua família na casa em que moram, na agrovila do assentamento 17 de Abril

Hoje, formado em pedagogia e matemática, não deixa de vaquejar, ajudando o irmão nos trabalhos no terreno da família. Mas a maior parte de sua vida transcorre na agrovila do assentamento, cuidando das lides da escola Oziel Alves Pereira.

Lá nos encontramos numa dessas manhãs quentíssimas e superúmidas do Pará. As turmas vinham trabalhando em estudos sobre a história do massacre, retomando a trajetória dos próprios pais e do assentamento 17 de abril, construindo textos e painéis que seriam expostos na Curva do S no domingo, quando haveria atividades em memória das vítimas do massacre.

dia 3 trabalho

Interrompemos as aulas para convidar a meninada para a corrida, uma ação coletiva de esporte, diversão e carinho: iríamos abraçar a escola no percurso, percorrendo de forma organizada algumas das ruas do assentamento.

“De forma organizada” era o que eu estava pensando. E também os professores, imagino.

De fato, aos poucos as crianças –alunos do primeiro grau, com  até 15 anos—foram saindo muito educadinhas de suas salas de aula. Com a ajuda do professor de educação física, Alison Barbosa,  foi possível fazer com que quase todas chegassem até a quadra de esportes, onde iniciamos nossa brincadeira.

Esporte não é só futebol –pode ser que existam divergências. Tratamos de mexer o corpo, brincar, correr, pular, fazendo uma bagunça geral que, aos poucos, deveria se transformar em ordem novamente.

“Em fila, em fila!”, gritavam os professores, e eu também.

dia 3 correndno em filas

Apesar da multidão –o grupo já estava em várias dezenas de crianças, talvez mais de cem–, conseguimos fazer com que todas saíssem pelo portão sem que nenhuma se machucasse.

Melhor: para minha surpresa, foram todas se mantendo quietas em frente à escola.

Então organizamos o grupo em vários pelotões, deixando os menores aos cuidados das professoras, que iriam liderar a caminhada dos pequenotes.

Severiano, eu, Barbosa e mais num grupo de alunos maiores formamos uma linha protetora. Seríamos o abre-alas da corrida, que tinha uma regra clara: ninguém pode passar do diretor da escola…

dia 3 professoras

Podes crer!

Dada a largada, saímos todos em desabalada carreira para conseguirmos ficar á frente das crianças, pensando em protegê-las ou sei lá o quê.

Não era necessário! Meninos e meninas, de vez em quando, nos passavam correndo, mas ficavam esperando nas esquinas nas ruas de quase nenhum movimento. Todo mundo rindo, brincando de correr –sem perceber, as crianças  se adonavam da terra que era sua, comandavam com o corpo o controle de seus espaços.

dia 3 corrida 1 abra

Mais que tudo: se divertiam.  E eu também.

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