“A impunidade gera a violência”, denuncia líder dos mutilados no Massacre de Eldorado dos Carajás

A sigla, em si, já é enorme: Asvimecap. Por completo, significa Associação dos Sobreviventes, Viúvas, Dependentes, Familiares e Afins de Trabalhadores Rurais Mortos no Massacre de Eldorado dos Carajás e em Conflitos Agrários no estado do Pará.

Na real, o povo chama de associação dos mutilados.

O presidente é Josimar Pereira de Freitas, 52, natural de Goiás, nascido em uma área que hoje é o Estado de Tocantins. Aos 15 anos, parou de estudar e caiu na vida em busca de ouro.

“Quando cheguei, o garimpo já estava funcionando. Tinha muita gente, tinha mais de 150 mil homens dentro do garimpo. Não teve que pedir licença para ninguém. Garimpo controlado aqui foi só a Serra Pelada. Mas eu não estive na Serra Pelada, trabalhei em outros garimpos, nem conheço a Serra Pelada.”

Havia fartura de trabalho e de dinheiro.

“Além da Caixa Econômica, tinha muito comprador de ouro. Uns pagavam mais outros pagavam menos. Dependendo da quantidade de ouro que você pegava. Trabalhava uma semana, dois dias, pegava no final de semana, 50, 60, 80 gramas de ouro, ia para a rua, vendia, fazia a compra da outra semana, gastava uma bocado, mandava para as pessoas. Todos nós temos uma pessoa que está necessitando da gente, continuava para frente.”

Assim viveu até o governo Collor de Mello, que mandou fechar os garimpos. “Na época a gente achava impossível, milhares de homens trabalhando. Ele fechou em dois tempos. Desvalorizou o ouro. Tinha que pegar cinco gramas de ouro para comprar dois quilos de arroz.”

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Fotos Eleonora de Lucena

Antes de desastre, o trabalho valia mais.

“Dez gramas de ouro era o valor de uma vaca; um grama de ouro, um saco de arroz. Não sei nem dizer o valor porque era em cruzeiro.  Um quilo de ouro comprava uma camionete D10 –hoje seria uma Hilux. Depois que o Collor de Mello fechou o garimpo, um quilo de ouro não comprava uma vaca. Não compensava mais trabalhar no ouro. Aqui em nossa região tinha, a Serra Pelada estava topada de gente, os outros garimpos lotados. Os homens tinham que fazer alguma coisa para tratar da família. Foi aí que virou a luta pela terra.”

Muito antes de o MST chegar à região, começaram os conflitos agrários. O governo estadual tratou de abrir espaço para reduzir a tensão no sudeste do Pará, como lembra Josimar:

“Em um ano só, o Jáder Barbalho liberou 42 castanhais do Mutran. Mas isso foi depois de ficarmos na terra, 40 dias e 40 noites sem sair da trincheira. Quem entrasse ou saía morria.”

O governo criou diversos assentamentos na região, mas a tensão seguia forte. Era ainda a época dos posseiros, os conflitos armados eram a marca registrada na sudeste do Pará.

“Quando a gente tinha perdido várias lideranças desse povo, surgiu o MST. Quando surgiu o MST, opa, chegou a solução para o nosso problema. Nós não estamos mais aguentando a repressão do latifundiário, do poder econômico, do poder público. Não tem política voltada para a reforma agrária, a polícia reprime a gente.”

Josimar logo se juntou ao movimento. Estava presente na assembleia de 5 de novembro de 1995, participou das ocupações, acampou em beira de estrada e integrou a jornada que terminou na Curva do S.

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“Nós iniciamos a Marcha dia 9 de abril rumo a Marabá. Nós queríamos conversar com a Superintendência do Incra de Brasília, reivindicando a desapropriação do complexo Macaxeira. Nessa caminhada nós tivemos três paradas. A última na Curva do S, chegamos lá dia 14. No dia 15 nós ocupamos a pista e negociamos com o major Oliveira. Eu não estava na negociação, era coordenador de grupo na época.”

Ele conta que, no acampamento, os camponeses se organizavam em grupos. O de Josimar tinha setenta cadastrados, cada um representando uma família de quatro, cinco ou até mais pessoas.

Ele levava informações e orientações para seus grupos. Outros dirigentes tinham funções diversas: um coordenada a disciplina, outro a alimentação, há os coordenadores de segurança, de saúde, de educação.

Os coordenadores gerais, que participaram da negociação, acertaram com os representantes do governo, no dia 16 de abril, que seria mandado um ônibus para levar uma comissão para negociar com o Incra, em Marabá, segundo conta Josimar.

“Quando foi o dia 17, era para virem esses ônibus. Por volta de umas três horas da tarde, chegaram uns quatro ônibus, vindos do lado de Eldorado. Mais tarde chegam outros ônibus do Marabá, cheio de polícia. Qual foi a nossa reação no momento? A gente achava que vinham algum superintendente do Incra, junto com o governo do Estado, uma autoridade, e aquela polícia vinha para fazer alguma segurança para esse povo.”

Pura ilusão.

“Eles vieram justamente para matar trabalhador. Não teve conversa com ninguém. Chegaram dando tiro. A primeira pessoa que morreu foi Amâncio. Morreu porque era deficiente. Ele falava, mas não ouvia o que a gente falava para ele. Quando deram as primeiras rajadas para cima, nós recuamos. Quando a gente recuou, ele não olhou para um lado e outro, ele ficou adiantado. Fuzilaram logo ele. Nesse momento, eles me deram um tiro, caímos eu e a Rubenita.”

Josimar ficou caído na pista.

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“A Adriana, uma menina que morava ali, tentou me levantar, pegou o meu braço, saí pulando numa perna só. Não terminaram de me matar porque não quiseram. Eles viram que a Adriana estava me carregando.”

Mas não iria escapar se não surgisse outro auxílio.

“Mais na frente assim, um rapaz grandão, não sei o nome dele,  botamos o apelido nele na época de Macaxeira, parece que ele viu a minha situação, pavor, saiu da moita, meteu a cabeça no meio das minhas pernas assim, me levantou e saiu correndo comigo, uns 500 metros comigo nas costas.”

Josimar ficou deitado atrás de umas macegas, perto de onde hoje é o Monumento das Castanheiras, memorial do Massacre..

“De lá eu escutava, PUM!-PUM!-Executando. Teve execução de facão, de tiro, de todo Jeito. Quando foi liberar a pista para eles voltarem, foi umas seis e meia para sete da noite. Eles foram embora, chegaram aquelas pessoas solidárias. Não é nem ambulância, o primeiro carro que chegava nós íamos botando dentro e íamos levando para o hospital. A maioria foi para o hospital de Curionópolis.”

Mesmo lá, não estariam seguros, não fosse a ação corajosa de um médico.

“A polícia entrou no hospital para matar a gente. O major Oliveira falou que não queria matar aquele tanto de gente, queria matar só as lideranças. No hospital, o doutor Faiçal botou a polícia toda para fora. Eles estava de plantão no dia: “O hospital é meu, eu que mando! Tira o povo todo daqui. Eu não quero ver nenhuma polícia nem aqui.” Obedeceram. Não demorou 30 minutos, podia andar que não tinha nenhuma polícia.”

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Feridos no Massace são ouvidos pela polícia – Foto de João Roberto Ripper/Reprodução

Baleado na perna direira, Josimar foi mandando para outro hospital. Saíram de madrugada, chegaram pelas seis da manhã. “Quando vieram fazer uma limpeza na minha perna, no corpo todo, que eu estava fedendo a sangue, já eram cinco da tarde.”

O sobrevivente acredita que o que o salvou foi a visita de parlamentares que foram inspecionar a situação nos hospitais que atendiam as vítimas do massacre. A chacina era notícia internacional, os poderes locais começavam a se movimentar.

“Chegaram umas quatro enfermeiras, foram metendo a tesoura, lavaram, deram banho, trocaram os panos da cama, enfaixaram, deixaram tudo parecendo que estava sendo cuidado, quando o pessoal entrou.”

Apesar dos prognósticos, Josimar não perdeu a perna, onde ainda dá para se ver a marca da bala que o atingiu. Outros não resistiram aos ferimentos. Além dos 19 assassinados na Curva do S, dois faleceram em seguida e outros nos dias seguintes.

“Nós temos sobreviventes que ainda não foram beneficiados. Pedimos que a Justiça seja feita. Ttodos os policiais foram indenizados. Não saiu um machucado, nada. Nem com arma de fogo nem com nada.. Indenização alta, não é que nem a nossa.”

Mesmo magra, a indenização só veio depois de muitas campanhas.

“A gente ficou um pouco meio perdido. Quando nós fomos achar uma advogada que fosse cuidar desse caso para nós, isso foi em 1998. Quando nós fomos entrar com uma ação na Justiça, quem foi que disse que a Justiça queria nos receber?”

Os trabalhadores responderam com ação: fizeram um marcha até Belém, foram até o Tribunal de Justiça em passeata, umas 15 mil pessoas, segundo Josimar.

A primeira decisão favorável beneficiou apenas vinte pessoas, que entraram com ação conjunta reivindicando seus direitos.

“Por que só vinte pessoas? Porque as pessoas tinham medo. Nós estávamos psicologicamente abalados. Tinha gente que via polícia ali e saía correndo. Até hoje ainda tem gente que psicologicamente não tem como conviver com a polícia.”

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A associação segue procurando reunir as vítimas, apontando o que precisa ser feito.

“Nessa incansável luta por justiça, nós temos o nosso objetivo, que é não deixar cair no esquecimento esse episódio, esse Massacre, e que não aconteça mais outro. Se a gente deixar cair no esquecimento, vai acontecer outro. Sem deixar cair nesse esquecimento, aconteceram alguns massacres, mas agora ficou parcelado. Naquela época era direto, todo ano tinha massacre de trabalhador. Agora, durante esses 20 anos, a gente pode arriscar que foram registrados na nossa região, menos massacres.”

A luta é para que os culpados sejam punidos, para que o estado assuma suas responsabilidades.

“A gente se indigna muito é porque não tem um culpado na cadeia. Não tem nenhum. Nenhum culpado pelo Massacre de Eldorado dos Carajás. O poder econômico e político e Judiciário, a Justiça acham que os Sem Terra provocaram a morte deles. Correram pra cima da bala. Os Sem Terra que provocaram a morte. Não foi a polícia que atirou, a polícia que mandou atirar, o juiz, que ajudou a autorizar, o governador do Estado que ajudou a autorizar, o presidente do país, que era o Fernando Henrique na época, também tem consciência da gravidade do problema, ele sabia disso, porque para isso teve uma reunião dos fazendeiros oito dias antes com o governador Gabriel, em Belém, oito dias tiveram a reunião, para fazer uma espécie de patrocínio do massacre.”

Ainda que os culpados não tenham sido punidos, os mandantes foram derrotados.

“Eles achavam que eles iam amedrontar os trabalhadores e que o MST ia desaparecer da região. Eles se constrangeram com isso porque o MST fortaleceu na região. O MST era meio esquecido, virou uma espécie de fortalecimento do movimento na região.”

 

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