Uma corrida com a turma da Crescendo na Prática

“Era um, era dois, era cem…”, cantava o poeta. E o que eu via parecia o mesmo: chegavam em cinco, em dez, em vinte, em trinta. De repente, o espaço todo do refeitório, um exército de mesões, bancos e cadeiras, estava tomado por uma criançada barulhenta, movimentada, agitada, brincalhona, satisfeita.

Conversavam entre si, numa fala que é quase um canto; de vez em quando eu sentia, me olhavam, desconfiados e curiosos, querendo atinar, saber, quem era aquele estranho chegante.

Alguns tinham me visto, dias antes, correndo pela praça quente do centro do assentamento. Só aguçava a curiosidade, transformada em algaravia de mais de trezentas vozes de meninos e meninas, garotos, pré-adolescentes, alguns até mais taludinhos, alunos da quinta à oitava série.

pm criancas reunidas

Quando ergui o braço, porém, fizeram silêncio –o silêncio possível, considerando o tamanho da audiência. E eu pude contar do projeto, da experiência, da proposta: correr para se divertir, para ficar mais saudável, para levar uma mensagem –e um desafio—para os pais e professores, tios, primos, irmãos e amigos.

A fala foi curta. Não há melhor forma de ensinar do que na prática –e ali, naquela escola, até o nome remete para a construção do aprendizado no dia a dia. Ela se chama “Crescendo na Prática” e atende cerca de mil alunos, entre estudantes da segunda etapa do ensino fundamental, ensino médio e jovens e adultos atendido no projeto de alfabetização.

Tal como sua localização geográfica no centro do assentamento Palmares 2, município de Parauapebas, também é uma espécie de coração da comunidade, pulsando sua vida e suas lutas.

“Ao longo da nossa história, a escola sempre foi uma referência, todos os espaços de discussão política interna, dos conflitos internos, externos, eles têm referência na escola. A escola centraliza a informação, e a comunidade busca na escola a resposta para muitas coisas. Você vai ver todas as atividades, as reuniões, acabam sendo  na escola. Morre uma pessoa da comunidade a escola tem que se posicionar. A escola tem que ajudar. Nada acontece dentro dessa comunidade sem que a comunidade demande que a escola se posicione. A escola sempre é chamada.”

Quem fala é Eduardo Salazar de Oliveira, 27 anos, ex-aluno da Crescendo da Prática e hoje um dos educadores que lá atua.

pm eduardo retrato

Essa importância toda não aconteceu por acaso. A preocupação com a educação da criançada, de jovens e adultos está presente desde o primeiro momento em que o pessoal do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra faz uma ocupação.

O assentamento Palmares é um dos pioneiros no sudeste do Pará. Sua história vem lá de longe, do início dos anos 1990.

“A primeira ocupação do MST relacionada com o Assentamento Palmares aconteceu no município de Parauapebas no dia 26 de junho de 1994, contando com 2.500 famílias. O local desta ocupação foi o “Cinturão Verde”, uma área de 411.946 hectares, pertencente à Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Os sem terra ficaram acampados nesta área durante três dias. Nesta área de preservação ambiental da CVRD foram erguidos barracos cobertos com lona preta, mas em poucos dias estes foram destruídos, pois chegou uma ordem judicial para que a área fosse desocupada.”

O texto é de um artigo dos professores Glaucia de Sousa Moreno Mestre e Gutemberg Armando Diniz Guerra, ambos da Universidade Federal do Pará.

Desalojados em 29 de junho, “os sem-terra dirigiram-se para a cidade de Parauapebas e foram para a praça pública situada em frente da sede da prefeitura municipal, onde fizeram um novo acampamento”.

Houve enfrentamentos, quedas, desistências. Mas centenas de famílias resistiram. Trataram de ir até Marabá, onde funcionava o escritório regional do Incra, responsável, em nome do governo federal, para assuntos de reforma agrária. E lá mesmo começou o aprender e ensinar dos acampados, conforme nos conta Eduardo Oliveira.

pm criancas ensino medio estudam cartaz

“O acampamento era para pressionar o governo e os órgãos que tratam dessa questão da reforma agrária, para que eles pudessem ter um posicionamento contra os latifúndios ilegais que se estabeleceram na Amazônia e nessa nossa região. Havia muitas crianças, muitas famílias. Houve a primeira discussão em torno dessa questão da educação. Nós precisávamos criar um espaço para discutir isso. A escola foi criada nos barracões de lona, debaixo das mangueiras, debaixo dos paus das árvores.”

O próprio movimento tratou de garantir o ensino: “Os professores, nesse momento, foram pessoas delegadas com o coletivo de educação. Quem tinha quarta série, quinta série, que eram pessoas com maior nível de escolarização, eles tinham uma tarefa de alfabetizar as crianças, os adultos. Num primeiro momento, não era uma escola reconhecida pelo Estado. Era uma escola, e ainda é, uma escola em movimento constante. Uma escola do Movimento, criada pelo Movimento. Falar da história da Crescendo na Prática é falar da história do assentamento. Ela nasce junto. Ela nasce na medida em que se estabelece a luta pela terra, se estabelece também a luta pela educação”.

O acampamento se deslocou várias vezes, saindo de Marabá para Parauapebas, onde ficou na Vila da Barata e também marcou época na área conhecida como Zé da Areia. E a escola firme e forte, crescendo na luta.

E lutar foi preciso. Trataram de ocupar uma área na fazenda Rio Branco, improdutiva, que já estava destinada a fins de reforma agrária. A terra era prometida, mas a liberação não saía; havia que pressionar.

“Desta vez os agricultores estavam totalmente determinados a não sair da terra, e ficaram neste acampamento de maio a outubro de 1995, quando decidiram iniciar uma marcha a pé até Belém, distante aproximadamente 800 km de onde estavam. Saíram no dia 10 de outubro e quando chegaram a Eldorado dos Carajás foram convidados a formar nova comissão para participar de outra reunião com o INCRA, novamente em Brasília”, diz o texto dos professores da Universidade Federal do Pará.

E prossegue o artigo: “Finalmente, depois de um ano e quatro meses de luta, os sem terra conseguiram que fosse desapropriada outra parte da Fazenda Rio Branco, que recebeu o nome de Assentamento Palmares em homenagem à resistência de Zumbi, líder dos escravos que fugiam do cativeiro no século XVII e ao Quilombo de Palmares, o maior de todos os quilombos que existiram na história do país. Em 11 de março de 1996, foi assinada a portaria de criação do PA Palmares”.

A área foi dividida, e o MST ficou responsável pelo território chamado de Palmares 2, que recebeu 517 famílias.

pm escola media trabalho de aluno vertical

De lona que era, a escola ganhou consistência, substância: virou barraco de pau a pique. E mais motivo de luta: pelo reconhecimento como estabelecimento de ensino e pela construção de prédios de material, capazes de receber a crescente população de jovens.

Quando estava prestes a ser inaugurado, em grande festa, a escola de madeira pegou fogo. Os assentados da Palmares, porém, não deixaram a peteca cair, como me contou Eduardo Oliveira:

“Antes de essa escola ser inaugurada nós já a ocupamos, por entender que a escola era nossa, não precisava de inauguração. O prédio estava pronto, tudo pronto, a escola pegou fogo, e nós viemos para cá. E fizemos ao nosso modo a inauguração, entendendo que ela é uma conquista da classe trabalhadora do campo; e não palco para se fazer n discursos sobre essa questão da educação dentro desse território camponês. A escola Crescendo na Prática vai sempre se estabelecer como uma peça fundamental no conflito da luta pela terra, no conflito que a gente tem quando a gente diz que quer ter o direito à educação.”

Ela mesmo, a escola, é uma exemplo da luta pela democracia e pela participação dos educandos e da comunidade na escolha de seu destino. Exemplo é o nome, Crescendo na Prática, que foi escolhido em votação.

Mais do que o nome, lembra Eduardo, a própria direção da escola é escolhida em eleição direta, que movimenta toda a comunidade.

Votam os alunos maiores de 14 anos, os pais de alunos e os assentados, mesmo que não tenham filhos na escola. “São muitos eleitores”, diz Eduardo.

pm crianca ensino media corre 1 boa

“Vocês precisam ver essa escola como um grande prestígio à democracia. Não existe um reconhecimento legal para a eleição escolar, mas aqui existe um respaldo político, e de certa forma para nós é legal. Há registro em ata, em livro do conselho. A Lei de Diretrizes e Bases da educação orienta que os espaços da escola são espaços democráticos, mas os governos querem sempre impor as suas direções, as gestões da escola, em cargos de confiança.”

Pois na Palmares não tem disso não. Ao longo de todos esses anos de escola –só vinte anos, contando apenas o período de reconhecimento formal–, apenas uma vez a prefeitura de Parauapebas tentou passar por cima da decisão da comunidade.

“Teve tempo que o governo nomeou um gestor diferente daquele eleito. Aí a comunidade veio para dentro da escola, trancou a escola, mobilizou os pais, mobilizou alunos. O prefeito insistiu na indicação dele. Mandou a polícia. Os pais saíram da escola. Ele botou um novo cadeado na escola e passou a chave para a nova diretora. Quando saiu todo aquele aparato, os pais retornaram para a escola, quebraram o cadeado, ocuparam a escola novamente e resistiram até a prefeitura aceitar o gestor que a comunidade indicou.”

Para quem costuma dizer que o PT sempre afaga o MST, o caso se deu exatamente quando a prefeitura de Parauapebas estava sob comando petista, em 2007/2008, segundo conta Eduardo de Oliveira, dizendo que a mobilização é que garante a legitimidade do processo:

“Existem brigas internas também. Tem uma chapa, tem outra. A mobilização que se estabelece nesse assentamento você precisa ver. Parece eleição para prefeito. Talvez mobilize mais do que isso. Talvez legalmente a nossa eleição mobilize muita gente e dê mais respaldo político. De certa forma nós inventamos nossas regras, as respeitamos. É muito interessante esse processo.”

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Interessante também foi a bagunça que se formou na escola, entre a criançada, na hora que a gente chamou todo mundo para a rua, pois é na rua que se corre.

Professores, auxiliares, o pessoal da merenda, todo mundo correu para ajudar a controlar o movimento, pois a gurizada em ação erta quase uma explosão.

Corri eu para a porteira da escola, veio Eduardo, veio o professor de educação física, veio o instrutor de informática, formamos uma parede e, aos poucos, fomos organizando a saída da turma.

Na rua, mesmo, não dava para correr àquela hora, que o trânsito ainda era forte. Então nos fomos, numa caminhada acelerada, quase trote, para um terrenão baldio que fica nos fundos da Crescendo na Prática.

Lá acontece a feira, são realizadas festas, encontros. Foi a nossa festa: tinha gente que queria disparar que aprendeu a esperar, tinha gente que queria ficar que aprendeu a partir, fomos todos nós de tudo um pouco.

pm criancas correndo bem ensino medio 2

Organizei um pelotão com os garotos maiores e então partimos para valer, dar uma volta inteira no terreno.

Foi uma fieira de gente, dezenas, centenas de meninos e meninas na brincadeira, professores correndo junto, movimentando, incentivando a turma.

É disso que se trata a corrida: alegria, parceria, encontro de iguais ou de diferentes que se igualam.

A corrida ainda deu a todos forças para um outro encontro, este mais triste.

Naquela madrugada, o eletricista Genílson, de 27 anos, tinha morrido enquanto trabalhava para a comunidade. Um cabo de força havia caído, e o jovem foi chamado pela vizinhança para o conserto. Saber, sabia mexer, mas mexeu errado: levou uma descarga sabe-se lá de quanta energia.

A comunidade chora a perda, leva solidariedade a família.

E a escola se movimenta: da corrida, organizamos toda a turma em fila e saímos a passo, em caminhada solene, até o templo da rua Fidel Castro, onde era velado o corpo do vizinho.

pm saida organizada

A Crescendo na Prática pratica o crescer.

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