Corrida em Maricá celebra saúde, prazer e utopia

“Primeiramente, fora Temer!”

A palavra de ordem ecoou em todas as reuniões, assembleias, rodas de samba e de debate, apresentações musicais e de teatro, palestras e feiras durante o 1º Festival Internacional da Utopia, superencontro cultural de movimentos populares realizado em Maricá, na região metropolitana do Rio de Janeiro.

O mesmo grito de revolta e de esperança abriu os trabalhos da 1ª Corrida e Caminhada da Utopia, celebração esportiva da luta por mais saúde e melhor qualidade de vida, mais lazer e alegria.

mari corrida antes da largada

A turma reunida antes da prova – foto Eleonora de Lucena

Na manhã de domingo, reunidos em frente à igreja matriz de Maricá, ao lado da Feira da Reforma Agrária, éramos um punhado de utopistas dispostos a brincar de correr.

Havia moradores da cidade que, até então, não tinham participado de atividades do festival, havia jovens e senhoras, um representante da aldeia tupi-guarani Mata Verde Bonita, instalada no território maricaense, dirigentes políticos e de movimentos populares e até uma ativista de uma organização de trabalhadores do Curdistão.

De certa forma, éramos uma amostra da multitude de gêneros, cores e sabores de gente que participou do festival: só no encontro da juventude havia mais de 300 moças e rapazes vindos de mais de 40 países; no total, a organização estima que o evento reuniu mais de 5.000 pessoas nos debates, encontros e festas.

mari corrida logo

“Nós temos um compromisso com o impossível. À esquerda tem que ter este compromisso. O compromisso de alargar o universo do que se acha possível”, disse Washington Quaquá, prefeito de Maricá, anfitrião do evento organizado em conjunto com movimentos populares. Ele prossegue: “No Brasil de hoje, o Festival Internacional da Utopia, se torna mais do que necessário. Ele vem pra unir forças e experiências transformadoras de todo o mundo”.

Também envolvido na organização, Felinto Procópio, da coordenação nacional do MST, afirma: “O festival deixa de ser apenas uma atividade cultural para se tornar uma trincheira para a defesa da democracia. Queremos mostrar que é possível construir um mundo melhor segundo a perspectiva dos trabalhadores. Assim, a utopia deixa de ser um sonho para ser algo concreto”.

Palavras exatas, precisas, para o pequeníssimo grupo que se encarregou de organizar a corrida: estávamos lá para concretizar um sonho.

Porém, quando cheguei a Maricá, convidado para ajudar a construir aquela caminhada, a tal corrida da utopia me parecia um pesadelo utópico, fadado ao fracasso e ao desencanto.

Nunca em tempo algum havia participado da organização de uma corrida, mas tenho plena consciência dos encargos, da miríade de detalhes que precisam ser concatenados para a construção de um evento que respeite os participantes, proteja sua saúde e lhes ofereça desafio, conforto, diversão, alegria.

O percurso imaginado reunia tudo isso, me disseram, e ainda lindo, maravilhoso, estonteante. Um trajeto simples, ponto a ponto, de cinco quilômetros da cidade ao mar.

mari corrida mapa geral da cidade

Lagoas separam o centro de Maricá do mar, que fica a pouco mais de  5km da área central

Maricá é um município aquinhoado pela natureza. Ao sopé de montanhas, sua área central é banhada por belas lagoas; passando delas, chega-se à região praieira, que conta com 46 quilômetros de praias. A de acesso mais direto, para quem sai do centro, é a Barra de Maricá.

Pois esse é o percurso imaginado: sair do centro e correr até a barra, terminar a festa num banho de mar.

Tratei de conhecer o trajeto. Saí cedinho, planejando fazer daquele reconhecimento de terreno meu longo da semana.

mari corrida mar da barra

Marzão da Barra de Maricá, verde que te quero verde!

Olha, tive de tirar o chapéu (ou por outra, tiraria o chapéu, se usasse um): que coisa linda! A primeira parte é urbana, chatinha, complicada; depois, tangenciam-se as lagoas, uma do lado direito, outra, mais à frente, do lado esquerdo, e se apruma o caminho em direção à praia.

Só alegria!!!

Quer dizer: só alegria para corredor experiente, capaz de enfrentar a série danosa de subidas e descidas ao longo da primeira parte do trajeto. E sabedor de buscar proteção contra os carros em desabalada carreira pela estrada de asfalto lisinho e novo.

Nem pensar, portanto, em fazer daquele o percurso da Corrida da Utopia. Além de tudo, era maior do que o prometido: ida e volta deu quase 15 quilômetros…

Agora era oficial: na minha cabeça, tinha se instalado o pesadelo. Não ia dar certo mesmo.

As nuvens negras da depressão, porém, começaram a ser sopradas para longe naquela manhã mesmo, quando me encontrei com outros utopistas dispostos a concretizar o sonho.

O segredo é mirar no impossível sem permitir que o tamanho do sonho nos impeça de seguir à frente. Vamos fazer agora o que dá e melhorar depois…

Apoiando a ideia, encontrei uma dupla de maratonistas estrelados. Não correm no asfalto nem nas montanhas: perseguem os caminhos do mar. Os irmãos Mariana e Pedro Mello são figuras raras, especialistas em ultramaratonas nadadas em águas abertas.

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Cena da Feira da Reforma Agrária, na praça da matriz, em Maricá – Foto Eleonora de Lucena

Mariana, 22, já fez três vezes uma prova de 88 km, foi vice campeã mundial nos 10km da Traversee Internationale du Lac Magog, no Canadá, e é uma das atletas que vai carregar a tocha olímpica. Pedro, 21, já participou de provas de até 57 quilômetros e foi campeão, no ano passado, do Desafio Mostras, de travessia no mar. Gente que não se deixa abalar por pouca coisa.

Aos poucos fomos desenhando um trajeto mais simples, capaz de atender e alegrar caminhantes e corredores iniciantes e experientes, sem estresse e sem ameaças à saúde de qualquer participante.

Com telefonemas para lá e cá, reunimos apoios das secretarias de Transporte, da Saúde, da Educação e da Segurança. Representantes do MST também disseram presente para ajudar na construção do sonho corrido.

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Paz e mansidão na lagoa  Maricá – Foto Rodolfo Lucena

O percurso não ia ter mar, mas teria lagoa. Águas plácidas, montanhas ao longe, essas coisas que contribuem para acalmar o espírito, iluminar o caminho.

Que beleza!!!

A mim restava correr e chamar as pessoas para a corrida, que é o que mais gosto de fazer.

Tratei, por exemplo, de conversar com os alunos das escolas municipais de Maricá, que também estavam acompanhando alguns eventos do festival da Utopia.

Numa tenda na praça central da cidade, chamamos a turma para uma brincadeira. Contei da importância do esporte, convidei meninos e meninas para que desafiassem seus pais, tios, primos, irmãos para uma corrida em volta do quarteirão. Brincamos de alongamento, pulamos, giramos, rebolamos e saímos para correr.

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Crianças correm mais rápido que  o disparo do câmera – Fotos Eleonora de Lucena

Foi só uma volta na praça, mas aqueles meninos e meninas se esbaldaram Saíram como um furacão entre as tendas. Eu, velhusco, tratei de correr atrás, enquanto professores e educadores físicos também se mobilizavam para acompanhar a turma.

O percurso foi construído ali mesmo, pelos meninos mais rápidos –havia também uma  garota na liderança. Eles puxavam a fila e lá nos fomos, fazendo fuzarca, mudando a paisagem das barracas de verduras e camisetas, de livros e comidas típicas.

mari corrida crianca ABRE 2

Foi muito bacana, mas o melhor estava ainda por vir.

No domingo de manhã, aos poucos as pessoas foram se chegando. Duas garotas queriam correr, uma família inteira veio para caminhar, um casal deixou a aldeia tupi-guarani especialmente para participar da corrida, um corredor da cidade trouxe para o evento sua cara-metade, ninguém menos que a Rainha da Bateria da escola de samba de União de Maricá, do encontro internacional nos vem uma representante das mulheres e trabalhadores do Curdistão…

Não temos medalhas, mas o pessoal da equipe conseguiu prêmios e lembranças para todos os participantes. Um galãozão de água é trazido para garantir a hidratação, amigos feirantes oferecem frutas, o pessoal do Trânsito, da Segurança e da Saúde está firme e forte, com carros e gente para acompanhar os participantes.

Fazemos em coro a contagem regressiva: “Nove, oito, sete… zero!!!” Largamos! Começa a 1ª Corrida e Caminhada da Utopia, um sonho que se transforma em passadas rápidas pelo asfalto.

mari corrida largada

Professor de dança de salão e técnico em eletroeletrônica, o corredor local Carlos Henrique Pinto dos Santos sai na frente, em ritmo forte. É perseguido por Tupã, o representante da aldeia Mata Bonita. E, para surpresa de alguns, Oya, a jovem curda, ocupa um honroso terceiro lugar durante algumas centenas de metros.

mari corrida trecho

No segundo pelotão, vai Mineirim, do MST, Duda jantorno, a Rainha da bateriado GRES União de Maricá, com este corredor contador de histórias mais atrás, em seu ritmo tartaruguesco, observando a paisagem e considerando o movimento, procurando saber se estava tudo dando certo.

Oya cansa logo, Duda lhe toma o posto, a jovem curda segue a passo e vai se somar aos caminhantes que vêm ao longe.

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Oya Ocak, representante de uma organização feminista do Curdistão, e Rubem Pereira,  secretário adjunto de Agricultura, Pecuária e Pesca de Maricá

Com cerca de um quilômetro corrido, chegamos à orla da lagoa de Maricá. O sol castiga, mas o vento afaga.

Circulando a praça Tiradentes, onde há muitos aparelhos para exercícios, começamos a volta.

mari corrida campeao VALE

O campeão “Dom Henrique” começa o caminho de volta na Corrida Utopia

Dom Henrique, como o corredor de Maricá é conhecido entre os amigos, vai distante, para Tupã é utopia pensar em tirar o lugar do amigo. Nós todos nos dedicamos só à brincadeira. Os que corremos passamos pelos que caminham e ainda estão no caminho de ida. Festejamos uns aos outros.

A pequena Sofia, orgulhosa com número no peito, obriga sua mãe a correr um pouquinho… Na volta, Sofia vai na cacunda de Shirlene, esposa de Tupã – a Corrida Utopia é um sonho familiar.

mari corrida mae e filha

Os resultados finais confirmam essa vocação: o casal Henrique e Marilda vence no masculino e no feminino.

Henrique completou os pouco mais de três quilômetros em 16min51; Marilda cumpriu a distância em 20min20. Shirlene, primeira caminhante a chegar, carregando a filha Sofia nas costas, fechou em 34min48.

O legal é que ninguém vai embora. Bebemos água, comemos dulcíssimas bergamotas (que alguns insistem em chamar de tangerinas ou mexiricas) e aplaudimos os chegantes.

Quando enfim estamos todos os quase vinte participantes de 1ª Corrida e Caminhada da Utopia, nos reunimos com aqueles que ajudaram a tornar o sonho concreto, os amigos e apoiadores que tornaram o evento possível. E fazemos a entrega dos prêmios e brindes.

mari corrida todos juntos final

Carlos Henrique conta que costuma correr quase todas as manhãs num percurso semelhante ao trajeto da prova, que elogia: “A gente interage com a natureza, a vista de nossa lagoa maravilhosa de Maricá dá mais pique e prazer de correr”.

A campeã Duda Jantorno revela que foi sua estreia em corrida: “Costumo malhar, faço musculação para manter o corpo porque, embora não pareça, sou uma senhora de 46 anos. Fiquei muito feliz, a corrida é um  incentivo para manter a saúde”.

Na mesma linha falou Shirlene, vencedora dos caminhantes:  “Nem vim preparada, vim participar para dar uma força para o Tupã, estou feliz demais de ter acompanhado ele, vindo com minha filha Sofia…”

mari corrida tupa VA

E o maridão também fez seus comentários, trazendo à baila a sabedoria dos povos ancestrais: “Dizem os mais velhos que você não deve olhar para a perna quebrada, para quem tem a pele mais escura ou mais branca, o que importa é aproveitar a sabedoria das pessoas, é buscar o caminho iluminado”.

É para isso que corremos.

mari corrida turma felizmari corrida percurso VA

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