Criançada corre alegre no acampamento Dom Tomás Balduíno, que sofre com o massacre de trabalhadores e a perseguição policial

Ai, quase morri! Eu nem fiquei cansado, tio! Água, água, água! Ai, não consigo respirar… Eu não parei! Quase caí! Vamo de novo, tio?!

Maritacas, canários, pombinhas, sabiás, os trinados das crianças enchiam de risadas, som e alegria o pátio de chão batido, terra vermelha, da escola itinerante Wagner Lopes, quase na entrada do acampamento dom Tomás Balduíno, em Quedas do Iguaçu, no Paraná.

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Fotos Eleonora de Lucena

A escola é uma espécie de cartão de visitas do acampamento, que hoje reúne cerca de setecentas famílias de trabalhadores rurais sem terra. Foi a primeira coisa a ser construída depois que, na madrugada do dia 6 de julho de 2015, cerca de 1.500 famílias, munidas de foices, facões e bandeiras vermelhas, ocuparam parte do latifúndio da madeireira Araupel.

Mais precisamente: do latifúndio ocupado pela Araupel, pois a Justiça já determinou, com base em farta documentação histórica, que as terras são do Estado e que seu uso pela empresa é, no mínimo, irregular.

Essa foi uma das bases, aliás, da concessão de terras para assentamentos da reforma agrária na região. Desde o final do século passado, em ondas sucessivas depois de ocupações realizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o território grilado vem sendo fatiado em benefício da produção familiar.

Os maiores são os assentamentos Ireno Alves e Marcos Freire, ambos em Rio Bonito do Iguaçu, com um total de mais de 1.500 famílias, e o assentamento Celso Furtado, em Quedas do Iguaçu, com 1.200 famílias. São frutos de lutas de 1996 e de 2005.

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Agora, a partir de 2014, o movimento retomou as campanhas, desta vez movimento pela ação dos filhos dos assentados, que também buscam emancipação e terra própria para trabalhar. Antigos agricultores, que tentaram a vida na cidade e acabaram expulsos das metrópoles, também se somam ao povo em luta pela terra.

Assim nasceu o acampamento Dom Tomás Balduíno. Lá, como ocorre em todas as ocupações comandadas pelo MST, a primeira preocupação é com a criançada e com a educação, com garantir espaço e segurança para a meninada se reunir e estudar.

Chovia muito, nos dias de julho de 2015 quando a ocupação começou. O temporal não impediu, porém, o trabalho do povo. “Quando dava uma estiadazinha, eles voltavam”, diz Verônica Lopes, diretora da escola itinerante Wagner Lopes (filho dela, educador popular, morto em acidente e homenageado pelos ex-colegas, amigos, vizinhos e ex-alunos).

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“Era igual formiga puxando  as tábuas. Cada três, quatro grupos assumiu  [a construção de] uma salinha daquelas lá, para fazer rápido. A proposta era construir primeiros as salas de aula e depois as casinhas de cada família.”

Em uma semana, estava tudo pronto: doze salas de aula, mais refeitório, cozinha, biblioteca, sala dos professores e sala da Ciranda, que é a área para os bebês e turma da educação infantil.

Ali, educadores populares, contratados pelo município ou pelo Estado, fazem o serviço completo: a escola tem turmas desde o início do primário até o terceiro ano do segundo. “Os educadores são todos daqui”, diz, com orgulho, a diretora Verônica, que é formada em pedagogia e cuida de um pequeno exército de cerca de 500 estudantes.

Boa parte deles esteve presente da brincadeira de corrida que organizamos na manhã de uma terça-feira cinzenta, até um pouco fria. Era parte do projeto MARATONANDO COM O MST, que busca construir nos assentamentos projetos de lazer e saúde, recreação, convivência e relaxamento tanto para as crianças quanto para os adultos.

Foi uma festa.

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Em correria, a criançada –e vários adultos, homens e mulheres, alguns integrantes da coordenação do acampamento–, tomou conta da rua principal do acampamento, recebida por sorrisos e gritos de apoio dos moradores.

Para variar, uma turma saiu em disparada e, não muitos metros depois, já ofegava reclamando do esforço. Mas todos mundo conseguiu cumprir o percurso, alguns caminhando, outros correndo durante todo o trajeto,outros combinando paradas estratégicas para garantir o final feliz (CONFIRA AQUI um pequeno vídeo da brincadeira).

E foi muito bom que isso acontecesse, pois dias antes, na tarde de sexta-feira, sete de abril, o acampamento tinha se levantado para lembrar um momento de dor, tristeza, sofrimento para todos: a passagem de um ano do assassinato, em emboscada, de Vilmar Bordim, que tinha então 44 anos, e de Leonir Orback, jovem de apenas 25 anos.

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Os moradores fizeram uma celebração em homenagem aos mártires: cruzes negras foram cravadas na curva da estrada, a cerca de cinco quilômetros do acampamento, onde o crime se deu.

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A tocaia, descobriu-se depois, estava armada havia vários dias. Palhas queimadas e terra mexida indicaram que os policias havia tocado fogo no campo, tentando atrair os trabalhadores rurais.

Não conseguiram, porém, armar fogaréu nem houve fumaça suficiente para chamar a atenção do povo que estava no acampamento. Então um telefonema anônimo avisou que, no extremo da área ocupada estava ocorrendo um incêndio; os bombeiros e a polícia já estavam indo para o local, mas precisavam de ajuda.

Em poucos minutos, naquele início de tarde de 7 de abril de 2016, os trabalhadores rurais organizaram um grupo para intervenção. Encheram uma camionete e um ônibus de gente disposta a enfrentar o terrível incêndio; dois motoqueiros abriam o caminho pela estradinha de terra.

Numa curva, os motoqueiros deram de cara com os policiais munidos de armamento pesado; enfiaram suas motos no mato e conseguiram escapar ilesos da fuzilaria que começou naquele instante, assim que a camionete entrou na linha de tiro.

“Fui baleado no braço aqui, olha para o senhor ver. Nas costas também. Sem contar que nos deixaram umas três horas, por aí, no mato, esvaindo sangue, sem socorro, sem nada. Teve um companheiro nosso que foi baleado, morreu por omissão de socorro.  Se tivessem socorrido poderiam ter salvo. Eles não socorreram na hora certa. Foi difícil. Foi um momento muito difícil para nós. Sem contar a judiaria que eles faziam com a gente. Eles pisavam no pescoço. Nos chamavam de cambada de ladrão. Vagabundo. Nosso dia a dia é esse que vocês estão vendo. Trabalhando. Eles tiraram uma parte de mim, meu direito, de poder trabalhar e ser uma pessoa digna.”

O depoimento é de Pedro Francelino, um dos sete feridos na emboscada. Pai de três filhos, ele ainda hoje precisa de autorização judicial para sair do município: numa terrível inversão dos fatos, os sem terra passaram a ser acusados de atacar a polícia. Francelino, por exemplo, é réu em processo por duas tentativas de homicídio (CONFIRA AQUI pequena entrevista em vídeo que fiz com Francelino).

Na época do crime, conforme regsitrou o jornal “Brasil de Fato”,  a Secretaria Estadual de Segurança Pública do Paraná afirmou que os policiais foram alvos de emboscada, mas confirmam a informação de que dois agricultores sem-terra foram mortos e sete ficaram feridos. Para o advogado Fernando Prioste, apesar de os fatos ainda precisarem ser apurados, a posição da SESP é contraditória. “É uma contradição dizer que a polícia sofreu emboscada, mas quem morreu foram os trabalhadores”, disse.

A contradição fica ainda maior quando se soube, depois da reconstituição dos fatos realizada pela própria polícia, que os policiais disparam 128 tiros contra os sem terra. Não foi recolhido nem sequer uma única carga de projétil disparada contra os policiais.

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“É um número descomunal, num conflito em que não há nenhum policial ferido”, comentou o advogado Darci Frigo, coordenador da organização Terra de Direitos, que denunciou à ONU as irregularidades nas investigações do massacre e as violações aos direitos das vítimas –várias delas transformadas em réus no processo.

“Na verdade, quem deveria estar sendo investigado são os policiais militares que mataram os trabalhadores”, afirmou Frigo, que também representava o Conselho Nacional de Direitos Humanos.

Um ano depois do massacre, os processos continuam em andamento, e o conluio de forças políticas, empresariais e policiais segue forçando a barra em cima dos trabalhadores rurais da região. Mais: tentam transformar em crime a luta pela terra, como denuncia o MST:
“Desde quatro de novembro de 2016 quatro integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) estão presos, e outros sete podem ser presos a qualquer momento, por protestarem contra a grilagem de terras públicas e em favor de sua destinação à reforma agrária.

Integrantes do MST são vítimas de criminalização política capitaneada pela Polícia Civil do Estado do Paraná, que os prendeu na “Operação Castra”. O nome da operação policial é uma referência ao objetivo da polícia de tentar “castrar” as reivindicações legítimas do MST na região de Quedas do Iguaçu, Estado do Paraná.”

Em documento que integra a campanha “Meu Crime é Lutar”, o movimento fala sobre o trabalho que realiza na região: “O MST da região de Quedas do Iguaçu reivindica que se realize reforma agrária nos 35 mil hectares de terras públicas que estão ocupadas ilegalmente pela empresa transnacional Araupel. Em dezembro de 2015 a Justiça Federal sentenciou que os títulos de terra da empresa são nulos, e o MST se organiza e luta na região com três acampamentos com mais de três mil famílias camponesas, para que essas terras sejam destinadas à reforma agrária. Cerca de 5800 famílias podem ser assentadas nessas terras e, assim, terem a oportunidade de construir vida digna através do trabalho com a terra”. (CLIQUE AQUI PARA SABER MAIS SOBRE A CAMPANHA)

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O MST afirma que as prisões são ilegais e trabalha firme pela libertação dos presos, entre os quais estão uma garota de 22 anos, FABIANA BRAGA, que coordenava o Coletivo de Mulheres e participava do Coletivo de Juventude do Acampamento Dom Tomás Balduíno, e o vereador mais votado da história de Quedas do Iguaçu, CLAUDELEI LIMA, de 39 anos, radialista, pai de dois filhos.

 

 

 

 

 

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