Entrevista com João Pedro Stédile

Conheci João Pedro Stédile no tempo do Ariri Pistola, como se dizia no Rio Grande do Sul para indicar uma época de um passado muito antigo. Já lá se vão mais de 40 anos, e o hoje militante da reforma agrária, como ele se define, talvez nem sequer sonhasse com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

“Mas tu eras um guri naquela época”, ele me diz quando nos encontramos para conversar sobre o projeto de corridas nos assentamentos do MST.

Falando assim, até parece que João Pedro era então muito veterano; que nada, a diferença de idade entre nós é de apenas quatro anos –ele é de 1953, eu de 1957.

Claro que, em certas épocas da vida, isso é uma distância enorme. Na primeira metade dos anos 1970, eu ainda arranhava no segundo grau, enquanto João Pedro estava na faculdade e já estava no batente. Atuava na Secretaria Estadual da Agricultura, trabalhando com minha mãe, Cecília Reckziegel de Lucena (1930-2014), na promoção de lideranças de trabalhadores rurais.

Às vezes, os dois se reuniam lá em casa para discutir assuntos que não podiam ser tratados no ambiente controlado da repartição pública. É o que Stédile, gaúcho de Lagoa Vermelha, conta:

“Tive o enorme privilégio de ser colega da companheira Cecília, juntos na Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul. Eram tempos duros, da ditadura, e todo trabalho era clandestino. Eu era muito jovem, ainda estava na faculdade, e ela uma senhora experiente, com muita consciência social,  sábia e muito dedicada aos trabalhadores, aos mais pobres. Fizemos vários projetos envolvendo a formação política de trabalhadores rurais, em todo o Estado, em geral em parceria com os sindicatos de trabalhadores rurais.  Guardo belas lembranças daquele trabalho, que era profissional, mas ao mesmo tempo nos desafiava a uma militância de sempre procurar ajudar a conscientizar e organizar os trabalhadores.”

Agora, quase meio século depois, é a minha vez de ter o privilégio de trabalhar com o Stédile. Nesta breve entrevista, ele fala um pouco de suas expectativas em relação ao nosso projeto.

Por que o MST resolveu apoiar o projeto MARATONANDO COM O MST?

corte retrato joao pedro

João Pedro Stédile na sede do MST em São Paulo – Foto Eleonora de Lucena

Porque achamos que é um belo projeto para estimular as atividades esportivas, de uma forma pedagógica, educativa, entre toda a população que vive nos assentamentos e acampamentos.

A partir dos assentamentos, também pode servir de exemplo para as comunidades rurais ao redor e também ao povo das cidades próximas.

O que o movimento espera desse projeto?

Esperamos que tenha uma influência positiva entre crianças, jovens, adultos, enfim toda população que é a base social do MST, para que se deem conta de como as atividades fisicas e esportivas fazem parte de nosso cuidado com a saúde e o bem estar das pessoas.  E, assim, gere um processo permanente de motivação para essas praticas.

Por isso, vamos colar as programações com as comunidades das escolas, para que depois a sementinha fique plantada em todas as escolas, e os professores e estudantes assumam essa prática de estimular atividades esportivas.  E que a partir deles possamos chegar aos adultos.

Como é, em geral, a situação da atividade física e da prática esportiva nos assentamentos?

Há diversos assentamentos que possuem escolas de ensino médio, e nelas em geral tem espaços e ginásios para a prática esportiva.  Aí a situação é melhor.  Porém, nos assentamentos em que temos apenas escolas de ensino fundamental, faltam condições para a prática de esportes entre os estudantes.

Nas comunidades, em geral há apenas um campo de futebol normal ou sete, para que os jovens e adultos joguem futebol.

Com esse projeto, esperamos que se amplie a visão, para que percebam que existem muitas formas e práticas esportivas. Elas podem ajudar a melhorar nossa saúde e aumentar o bem estar, alem de estimular o maior convívio social e as relações humanas.

Acho que também faltam oportunidades de práticas esportivas para as mulheres. E os mais velhos acham que têm de se contentar em jogar cartas…  Por isso, precisamos aproveitar o projeto e fazer um debate com toda a comunidade e descobrir formas esportivas que deem oportunidades para todos, assim como a caminhada e as corridas.

Qual é a importância da atividade física para os trabalhadores em geral e, em especial, para os assentados?

É fundamental estimular todas as formas de prática esportiva e atividade física.  Faz parte de nossos cuidados com as pessoas e com sua saude.   Alem do caráter social e do convívio que isso gera.

Como disse antes, nas comunidades rurais e assentamentos, infelizmente, há ainda pouco estímulo e às vezes faltam também condições objetivas.

Por outro lado, como o trabalho na agricultura exige muito esforço físico, na maioria da situação o povo chega de noite exausto, sem nenhuma vontade e de praticar nada.

Esperamos que com esse projeto se criem alternativas, mais lúdicas, mais prazerosas de práticas esportivas para todos, em que as pessoas se motivem a caminhadas, corridas e exercicios físicos,  que podem ser estimulados de forma coletiva e disciplinada.

Você corre? Faz caminhadas ou alguma outra atividade física? Como são suas sensações nessas atividades? Qual sua experiência?

Até dois anos atrás ainda jogava futebol sete, como quarto-zagueiro que fui toda vida.  Porém aqui na cidade grande é difícil montar grupos e equipes. Além disso, por causa de minhas viagens a trabalho acabei tendo dificuldades para me manter num time. E agora a idade já vai pesando.   Tenho recomendações medicas de fazer caminhadas, como forma de combater a diabetes.

Enfrento a mesma dificuldade [dos trabalhadores assentados],  de falta de tempo, mas, sobretudo, de conseguir manter uma disciplina individual.   Não me sinto motivado a sair caminhando sozinho pela rua ou praças próximos da minha casa.

Por isso, acho que esse projeto nos assentamentos pode motivar as pessoas a organizarem as caminhadas e corridas de forma coletiva. Dessa forma dá mais animo, e um ajuda o outro na disciplina de horários.

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